3.6.10

de vez em quando

De vez em quando
Vem, só, na gente
vontade louca
de se rasgar.
Rasgar o verbo,
rasgar a carne,
de tanta gente,
de tanto Homem,
até a nossa
há de acabar.

Vem d'outro lado
Maneira forte,
que nos assalta
sem nenhum medo
de se errar.
"Coitado!", eu digo
de nossa gente,
dos nossos Homens:
que jeito tem
pra se ganhar?

Moleza nossa
é que não é:
é impossível
arredar pé.
Sozinho não
dá-se um jeito.
Pode tentar:
não tem efeito.
Pra terminar,
te digo isso:
solução só
é Jesus Cristo


18.5.10

Suicídio?

Por um momento, nem sei mais porque estou fazendo isso. Mas logo essa sensação passa. A frieza pode ser imensurável, mas vale a pena; é considerada de forma diferente, podando o oxigênio do ar. Os passos não cessam e insistem em fazer um ritmo contagiante. Combinam com os meus passos, talvez até com meus movimentos: tempo no pé, contratempo no dedo, tempo no pé, contratempo no…. ai, odeio quando as coisas não vão de acordo com os planos.

Mais um cai e não posso fazer mais nada… quer dizer, além do que já fiz. Bem que eu podia ter pegado uma cadeira mais confortável. Ah, de novo, por que estou fazendo isso? Ah, é… a vida… é a resposta de tudo. Ou a falta dela. Que momento magnífico, o encontro de vários destinos distintos. Ou melhor, destinos que seguem duas linhas tortas: a morte e a vida. Talvez se eu tivesse comido sobremesa hoje… eu… não, continuaria o mesmo.

Os passos pararam um pouco. Talvez seja melhor eu dar uma olhada, ver o que está acontecendo. Lá embaixo continua tudo como estava,talvez estejam na escada. Ai, saco… Não posso me dar esse luxo de ser visto. Mas é tão bom ver as pessoas tão pequenas e frágeis, pequenos pontos em busca de sentido que apenas pararam na beira da calçada na esperança de encontrá-lo. Como algumas pessoas podem ser desesperadas. Talvez encontrem outra coisa… hum, se bem que alguns destinos estão reservados apenas para certos seres. Afinal, nem todos merecem morrer. Veja aquela mulher, por exemplo, aposto que ela tem um filho e uma mãe dos quais ela cuida. Batalha, mas consegue cuidar. No final do dia a mãe ainda reclama que o dia foi muito quente e o filho chega com más notas. Mas nada disso é culpa dela, aposto. Ela faz o que pode… Trabalha por ela e pelo marido falecido para sustentar uma casa com três e todas as contas que vem junto. Escola particular nem pensar. Sobrevivência vem primeiro, como um instinto. Talvez ela tenha parado aqui embaixo para sentir algo diferente no dia, botar tempero nessa realidade chata.

Ah, quem sou eu para culpar a realidade. A minha sou eu mesmo. Eu sou chato. Perguntem para eles, os de boca escancarada. Eles dirão que até tem pena de mim, mas não me suportam, não mesmo. Ai, bate um remorso de vez em quando. Esse é o tipo de sentimento que temos que deixar de lado, não acresce em nada (mas para onde eu cresceria, mesmo?). Lá vem mais um. Já vejo ele abrindo a porta e me olhando com cara de dó e desprezo, caindo junto aos outros tantos. Ué, cadê os passos que ouvi? Deixa eu despertá-los por um instante, só um momentinho. Aqui, ali, aqui, lá, lá, ahá! Achei. Que pena, podia não ser assim, simplesmente, mas já que é… fazer o quê?

Cinco e quatorze. Está quase na hora. Espero que tenha gostado. É, você mesmo que está na minha cabeça, observador oculto! Não torne a cara, não! Te vejo sim e não há escape! Mas não se preocupe, não te darei o mesmo fim que o meu… espero. Apesar de você merecer morrer. Quem mandou simpatizar com um assassino? Quem…

19.4.10

Senhor das Árvores (começo)

Esta história começa com uma menina triste. Mas peço, caro leitor, que não fique triste por ela. Não quero dizer que ela é uma má menina, que não merece compaixão (se é assim que a compaixão funciona), mas digo isso porque, como você poderá perceber no decorrer da história, a sua tristeza será motivo de alegria. Não sei se vocês já tiveram esta impressão, mas me parece que muitas das coisas ruins que vivemos mais adiante serão transformadas em riso, desde aquele momento constrangedor que passamos na frente das outras pessoas até decisões inicialmente ruins, mas que renderão bons frutos. Esse é o caso de Lily, que está chorando silenciosamente porque seu pai aceitou um novo emprego na cidade (o que seria uma ótima notícia, se isso não resultasse no abandono da maravilhosa casa no campo onde moravam até agora). Pois é, Lily achava uma grande maldade os fazerem mudar de casa só por causa de um emprego novo, ainda mais quando sua antiga casa tem um jardim enorme com uma linda árvore com um balanço e uma casinha rosa repousando na grama, onde Lily guardava seus brinquedos favoritos e vivia grandes aventuras. Ela imaginava que morariam num apartamento apertado e sujo, com ratos em todos os quartos que não iriam a deixar dormir e um intenso barulho de cidade – seja lá o que isso significa. Foi assim que Lily viu pela última vez a sua casa no campo: com lágrimas nos olhos, sendo consolada pela mãe.

17.4.10

Sem título

Eu, insustentável ser,
Descobri teu amor
Quando vi teu querer.
Mesmo eu cheio de dor,
Vaso velho estilhaçado,
Cidade pobre em ruínas.
Descobri ser amado,
Quando assim me querias