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11.11.14

De poetar

O poema é ocasião.
É a foto da alma,
O prazer na calma,
A verdade na oração.

Poetar é receber o que está adiante,
Perceber seus movimentos
E - por que não? -
Sua paralisia.
É escolher a luz, o foco, a lente
E ver o diferente
Em tudo o que já é.

Poetar é dizer não à pressa,
É negar a pressão impressa
Pelo inimigo da beleza,
O diabo da nossa gente,
Que nos impede de ver a nossa
Própria
Pobreza.

Poetar é falar com Deus,
É sentir nos ossos a fraqueza
Do ser (belo) humano.
É deixar que ele enterneça
A angústia,
O orgulho,
O engano
E assim...

Entrega os olhos à luz,
A calma à rotina
E a alma a Deus.



18.6.14

Branco

Muito se engana quem vê a pureza
como um branco morto,
o vazio completo,
o suspiro
- e só.

A verdadeira pureza é branco flamejante.
É uma onda que engloba,
envolve e dissolve,
dando luz a todas as outras cores
- é tudo.

23.4.14

Solução

Toda palavra está repleta de significado.
Toda menos uma.

Ela perambula, errante,
pelos lados errados.

Gasta-se pelas beiradas até
dissolver-se por inteiro.

Espalha-se pelo ambiente, camuflado,
rasgando cada um de seus pedaços.

E morre morte disfarçada,
regando o mundo com suas partes.

Ai, beleza de desvanecer!

5.3.14

O medo e seu antônimo

Estático.

Tomas sua mão no imenso vazio,
moves da escuridão os pés do fraco,
curas o coro de dor de seu calo,
e o lavas puro em teu grande rio.

O medo é a menor das milhares mortes,
o medo é a pior das menores mortes.

Vida.

Queimas os restos em sua imensa brasa,
reúnes o pó do corpo do fraco,
restauras em dor para o seu agrado,
e manda-o puro a viajar com asas.

O amor é o grande antônimo do medo,
meu Deus é o grande antônimo do medo.


4.11.13

Salmo 1

A felicidade não é para os pés errantes
ou os passos cambaleantes do aventureiro.
É estar enraizado, fixo, certeiro
em meio às tempestades desconcertantes.

Pobre de quem foge da palavra de ferro e prata,
a voz escrita em traços legíveis e claros.
No fim, se espalha pelos dias cansados
e não fica para a tal bela serenata.

11.3.13

pena

ser criança é (vi)ver tudo (de) novo;
correr por ser possível;
(sor)rir por ser gostoso;
chorar por ser doído.

a infância é (celebr)ação do ser.
é uma pena que a gente esquece.

30.12.12

Ano novo

Vida nova é um tanto simples.
Simples - não fácil.

Algo aqui, acolá;
um aperto; olhar atento;
voz tenra e mão disposta.
Simples.

Não é, contudo -
palavras: vento.
Vida nova é um tanto simples.

Quem tem dois - reparta;
Daquele com poder - justiça;
Do que tem força - serviço.
É isso. Simples.

Vida nova é um tanto simples.
E, de certa forma, como o estribilho
só o é quando for repetido.

Lucas 2: 7-14.

11.11.12

libertanatema

Odeio quando tentam prender-lhe;
detesto!

Semi homens vendados de negro
atrabelhoam pelo escurismo;
incomodados, cheios de cismo,
algemoam cada pé e dedo.

não!:
                des        (a)
                     prender

Deixa o véu e a porta fechada;
deixa no escuro.
Deixa o fermento ressoar
até (ex)trair o sentido.

Libertem-na
anátema
tema
ema
a

A linguagem não se prende.

8.10.12

abuso

atravessa o vácuo das palavras
o olho descuidado,
atraído pelo adjetivo.

mal sabe que assim mata
- o sujeito (?)
e predica pedregulhos.

a palavra, coitada,
é submetida à circunstância
e desmancha.

3.9.12

Logos


Eu sou o fogo.

Operar purificante,
línguas sedentas sobre o ferro
que endurece – não sem antes amolecer.
Impacto imperioso,
penoso,
que limpa.

Eu sou a água.

Não um rio, nem uma bica
- uma torrente.
Os limiares da terra e céu,
o engenho silencioso de toda gente.
Sou eu que mato
- para dar vida.

Eu sou a terra.

Os fundamentos de toda existência,
as torres brancas silenciosas
e o pó – sim.
Do pó retiro minha
imagem
e semelhança.

Eu sou o silêncio.

Incontrolável, inapreensível.
A mudez de toda gente;
e o barulho da alma.
Sou aquele que é achado
não na divina calma,
mas quando se está calado.

26.4.12

vermelhando

O verme é uma coisa tão linda e insignificante;
tão diminuto;
ocupa um lugar ingrato - mas necessário
- na natureza
e não falha.

Ele come os mortos.
(e também os vivos, no tempo livre)

Ninguém o ama.
Pisam-lhe, sim, os desgostos;
lastram nele toda angústia;
culpam-no da existência patética,
enquanto remove o podre de todos.

Nunca matam.
(mas cuidam da morte)

Se são bons? Não sei...
não importa.
não mais.
Já me cuidam das entranhas
e me dão à terra.

28.11.11

Barco Eterno

Quase sem velas, paira sob as águas
Deslizando, pesado e lento.
O capitão, absorto em solidão e fracasso,
Iça, puxa, cansa e geme.
Corre louco em redor, bradando,
De punhos cerrados às vagas estrelas,
Quase sem respostas ou nitidez ficam
Longe e inalteradas, quase indiferentes.

Mas o homem-do-mar sabe
Que delas vêm a vontade sobre o medo
Na esperança última da luz.
Qualquer uma! Morte ou vida!
Porém...
Nada...
Somente um pálido olhar
De quem está com preguiça.

E vai ele, marujo condenado,
Dobrando, passando, tremendo e gritando.
E nem mesmo obtém resposta
De seu único companheiro, frio e inflexível.
Não dobra nem à direita ou à esquerda,
Num mesmo ritmo semi-morto,
Lento demais para revirar a mente de um são,
E rápido o suficiente para dar passo
A uma nauseante inquietação
De quem nunca para,
Nem mesmo para morrer.

Colocado ali um dia
Com a tal benção ou maldição
De nunca afundar - por inteiro.
De nunca perder seu timoneiro,
E eternamente vagar pelo mar.
Visão radiante... para um iniciante...
Que distorce na primeira tormenta.
E chocando com pedras e pedras,
Atrai o desejo último - quiça inevitável
De parar, enfim, parar...

[escrito em Florença]

16.8.11

de dentro... para dentro

sabe, meu mundo, como os pés movem
e não raramente aparecem errados?
a gente fala coisas tortas
e nelas crê,
sabe?

cada giro meu
torna ao mesmo lugar
e insisto em girar.

os dias vazios transbordam as semanas,
numa vontade niilista de viver só
com choros que não caem
sabendo do erro.
sabendo...

o desejo é de ter perto
na distância de um sorriso
uma presença de amigo.

enquanto o pensamento vem mutilado
das tormentas todas de dentro
passando aperto no peito
para morrer, em maré,
de saber,

eu monto pilhas e pilhas
de trapos esparsos
sem, espero, tombar

e não ofereço. não! não ofereço!
assaltado por mim, guardo,
e o peso empurra
para as águas,
fundas

olha, meu mundo,
e percebe o erro?
insisto no terceto...

mesmo aqui as palavras se agrilhoam
viciadas no torpor do pensamento
que, machucado, ilude o resto
a fim de ferir mais
fundo

não posso dizer somente
aquele medo latente?
não sei ser só...

20.6.11

Sinfonia do céu

Em tons claros passa o dia,
Retorcendo o laranja em azul,
Enfeitado de pingentes brancos,
Rastros dos anjos imaginários,
Caminhos de qualquer fantasia,
Que deslizam em bandos,
Como dirigíveis intocáveis.

Ao pé um verde ralo, pouco e sincero
Suporta o astro-rei na escalada solitária
(a qual nenhum homem jamais fará igual),
E dando também certeza
de que é
real
e também realeza.
Do pó vemos acima,
E do pó acreditamos.

Mais um pouco, o azul,
Na tristeza de um amor perdido,
Roxeia o laranja,
Nos últimos abraços
De uma despedida carregada,
Uma tristeza sem carga, nua e inevitável,
Cuja dor vem consolar
Pelos trovadores do ar,
Aqueles tantos que de anos caminham,
Chegando às vezes mortos...
Mas não sua música,
Interpretada sempre
Pela dama
Branca e tímida,
Que por ora, de vestido volumoso
Mostra tanto, tanto
Que nela nadamos

Não vejo harmonia,
Entre a diária sinfonia do céu
E meu ser calado,
Que enfraquece voz ao lado,
Por desgosto de ser tão destoante
Parece que o ritmo, no fim, é diferente
E deve ela mesma seguir à frente
Enquanto prendo eu no meu atraso

17.6.11

Daquelas injustiças

Num campo de sossego e frescor de orvalho
Eu na pressa de um oblíquo caminhar
Lembro do mover calmo das ondas do mar
Das brancas leves nuvens ao passo que passo

Vejo a nítida manifestação de vida
Da flor-sangue que convida à admiração
Solitária e tão bonita em minha mão
Que o vento, indignado, mergulha de cima

Arranca em raiva do campo e de mim as pétalas
De magnificência vermelha de flor
E o céu quase chora como não fez em décadas

Meu peito é obrigado a carregar esperança
Para um mundo onde não se cabe ou aceita
Contando piada quando alguém não alcança

17.5.11

debaixo do pano

os homens gritam por socorro
querendo enfim saber o que se faz
quando um sonho se apaga?

os rios secos correm vazios
queima ainda a chama abafada
cresce o broto sem raiz
tudo acontece como que nada
colhem-se de campos sem sementes
um quadro pinta sem cor
o homem sem desculpas
se humilha ao falar de amor
pede por favor pra dor que sente
que esconde nos dias frios
como se não desse a perceber
que água nenhuma há no rio
vem trazendo do jeito que
sabe o gesto louco de quem
não se importa com um prego
na mão, na esperança de ninguém
ver.

22.3.11

A Onda

Meus olhos ardem de intenso pavor
Da visão daqueles meus feitos.
Fazem balançar meu céu,
Partilham minha terra,
Roem meus ossos,
pedaço a pedaço,
metade à metade,
Na louca agonia
De um ritmo louco
Que penetra a carne.
Lá ao fundo se encontra
De sangue um tantinho
Escondido do corpo
Dando-se o direito
(Daquelas leis pessoais
Nem o coração mal sabe)
De consigo esconder a vida.
Deixa, então, aquele resto
Numa desesperada batida
De quem não sabe nadar:
Sabe e vai – apodrecerá
Mais Cedo ou tarde…
A carne, sem sangue
Fará a falta precisa
Que o corpo precisa
Pra terminar de morrer
E não sei enfrentar esta onda!

Meu Pai esquecido,
Faz deste remendo
Quem sabe um dia
Um belo remédio.
Agarra pelos pulsos
Sem que caia e parta
Meus tantos ossos
Que estão à porta.
Bota em mim padrão
Me bota para amar
Sem aquela variação
E inconstância lunar
Que basta a semana
Pra mudar de cara
E nem faz de conta
Que da gente lembra.
Sei que só a sua mão
Pra parar minha perda,
E só esse seu coração
Pra perdoar este louco.

12.1.11

Nas entrelinhas

Dos olhos de um novo rapaz
Aos risos de uma linda mulher
Vemos traços de música,
Sem uma exata harmonia:
Notas cambaleantes e inseguras,
No aguardo do que há de vir,
Ensopam a camisa branca,
Dilatando as pupilas dos solistas
Enquanto o coração dita o passo
Cada vez mais rápido do metrônomo

Em poucos segundos,
Uma colcheia atropela a outra,
Dois arcos se desafiam,
Quatro mãos deslizam pelas teclas
Em desordenada fantasia de calma,
Como um pássaro orgulhoso que cai
Mas tem as asas quebradas.
Toma o veneno sem hesitar,
A vida caminha torta,
Sem mais certo lugar

Até que duas pausas pousam juntas
Seguidas de breve, semi-breve, mínima
Todas elegantes acompanhadas.
Entreolham-se hesitantes
Com confiança, não obstante
Pisam juntas, marcam passo,
Encontram mãos lúdicas
E bocas secas de esperança:
Finda-se a música,
Bem-vinda a dança

19.12.10

De estar só

Nada pinta mais o rosto,
Nem seca esse molhado,
Ou refaz aquela dor
Dum peito enjaulado

Um espaço vago se vê
Nem música, arte ou sonhos
Invadem aquilo que falta
Sem os tais sorrisos bobos

Ah! E então?
Quem dera soubesse
o remédio da solidão

3.12.10

Como um trem

Que roda e range sem parar,
Olhando o céu, sobre o mar,
Cruza o verde tocado por pássaros,

Alaranjado e constante
Na música sua de máquina,
Quente no ventre negro e sólido,

Paredes que não se contém
O coração salta sem vez
Os trilhos titubeiam e fogem de lugar,

Não quero pensar
Só quero passar
Não quero pensar
Só quero passar

O grito surdo é atendido
Na encruzilhada, diverge
Compreende a escolha solitária

Seu raciocínio muda do vício
Olhos tentar recuar
Por saudades do ar

Estabelece errados os passos,
E a dor no coração
Faz a terra tremer

Um longo e sonoro gemido é ouvido
Os giros contrários:
Rubros em fúria

E agora? E agora? E agora?
E agora? E agora?
E agora?

Há sempre um novo caminho
Uma rua justa, bela e robusta
Onde vão em paz tuas rodas