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5.11.14

Luz e Trevas

Estamos nas trevas. Na mais profunda, inexorável escuridão. Estamos tão envoltos pelos seus ramos, que estes se confundem com nossa pele, penetram nossas veias, encharcam nossas mentes, lambem nossos olhos e, até mesmo, atrofiam os músculos. A escuridão cansa, drena a própria essência da vida e quebra a vontade, mantendo-a respirando com alguns petiscos por dia. A escuridão é nossa irmã, cunhada, tia. É nosso sustento e nosso parasita. É a mão que oferece o alimento do dia e que nos arranha a garganta. Nascemos na escuridão e estamos fadados a viver a vida inteira em seus braços. Nem saberíamos como viver distante da tal implacável treva.

Veio a luz,
veio o dia...
O mais intenso feixe de luz
revelou-se
na forma
de
homem.
Paz
cristalizou-se
em
 nome.
Ele é
vida.


A luz nos feriu, causou-nos a mais intensa angústia. Os músculos gemiam, os olhos tremiam e a língua via toda dor. Alguns, não suportando a agonia, fugiam. Quanto mais a luz se aproximava daqueles que ficaram, mais repelia aquela que outrora nos sustentava. A escuridão nos chacoalhava, retorcia e flagelava. Outros correram do dia, pedindo clemência. Daqueles que ali ainda estavam, as trevas saíam deixando marcas, agarrando-se firmemente à nossa carne com seus dentes predatórios. Sangrávamos. Sangramos... Em sua ceifada final, deu-nos um golpe fatal - se ela não sobrevivesse, não também teríamos de morrer. E morremos. Nossos corpos frios, estatelados pelos chãos deste mundo enfeitavam o dia recentemente iluminado.

Aqueles que experimentaram a morte foram banhados pela luz. Os que foram quebrados pela escuridão eram aos poucos reconstruídos pelo dia. A vida, enfim, visitava o ser humano - e este nunca se sentiu tão livre...

O ladrão vem apenas para furtar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente. (Jo 10:10)
Pois sabemos que nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído e não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu foi justificado do pecado. (Rm 6:6-7)
O ladrão vem apenas para furtar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.

João 10:10

10.8.14

Beleza média

Não há nada mais bonito que a beleza média. Em primeiro lugar, porque poucos falam dela. Não é surpresa para ninguém que as estéticas mais populares beiram os dois polos - o do sublime e do grotesco. O primeiro representa a ilusão do desejo humano e o segundo a abnegação - mas nenhum dos dois supre as vontades mais profundas do ser humano, coisa que só a beleza média pode fazer. A beleza sublime é a fantasia de buscar o inalcançável. É o pensamento equivocado de que, quanto mais próximo da simetria tirana, mais profunda será a satisfação do ego. É o ideal de que precisamos de cada vez mais - inflando e inflando o ser, deixando-o inchado e obeso. A arte, a natureza e a sabedoria já nos mostraram que o exagero não é equivalente à satisfação. Um campo extenso e repleto das flores mais belas é impressionante. Mas é ainda mais impressionante perceber uma flor qualquer em meio a um campo cinza. Como já dizia Drummond:

"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu."

Também o grotesco, a abnegação completa, não é a resposta para as necessidades humanas. Nascido da frustração de um mundo que venera a beleza sublime, o grotesco surge como reação à impossibilidade de alcançá-lo - porém sem nenhuma moderação. É a tentativa de humilhar a humanidade, destruir as bases de suas edificações, queimar os campos repletos de flores - para que então possa surgir nova vida. Contudo, o grotesco não foi bem sucedido nem em seu projeto de  destruição completa, nem na utopia de se reconstruir a vida. Como poderia a violência gerar vida? Como poderia a feiura renovar a beleza? O grotesco é apenas a alma se afogando em sua obscuridade, é a besta que irrompre de dentro do pobre humano. Como já dizia Augusto dos Anjos:

"Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade."

A beleza média não dispõe da popularidade da sublime ou da grotesca. Mas é bom que assim seja. Se fosse louvada em cada esquina, a ganância do homem já a teria transformado em produto. Discreta, ela não carece da publicidade de ninguém. Ela desliza por entre a gente despercebida, inspirando no anonimato. A beleza média é a suspensão entre o sublime e o grotesco. Não é pomposa como aquela, nem radical como esta. Sua principal virtude é ser real. A mulher em sua juventude traz consigo o frescor da vida. É bela por tudo aquilo que tem ainda pela frente, por tudo que ainda não experimentou - denunciada pela pele lisa. Quando se depara com o tempo e envelhece, as rugas aparecem, mas a beleza é a mesma. A beleza média se manifesta no seu justo cansaço, nas marcas que a vida lhe deixou - e que foram superadas. A beleza média repousa no espírito perseverante da experiência, na moderação da sabedoria, no simples e no real - acima de tudo no real. O mais belo da mulher é o fato de ser real. Quando se percebe a realidade da textura do ser vivo, o despimos; passamos a perceber a simplicidade de sua natureza. E, aí sim, estamos prontos para amá-lo. A beleza média satisfaz o ser humano porque o dá a permissão de amar.

A beleza média não busca absorver mais e mais do mundo. Ela tampouco quer destrui-lo. Ela nos liberta da vaidade do exagero e do desespero da destruição, a ponto de perceber a vida como ela é, experimentar de sua realidade. Passamos, enfim, a reconhecer o valor real do que nos envolve. Conhecemos a vida e todos os seus nuances. Apreciamos sua riqueza sem nunca desejá-la. Vemos, inclusive, a beleza na morte - e todas as possiblidades que ela oferece. Como já disse o apóstolo:

"Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado nele (...) Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos."

Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas.

Filipenses 3:
Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas.

Filipenses 3:
A beleza média revoluciona o mundo através da simplicidade. Prova maior disso é a própria Beleza ter se transformado em homem médio, carpinteiro, de mãos rudes e face medíocre. A Beleza despiu-se de si mesma e vestiu a pele de um homem comum. Em suas vestes toscas, ensinou-nos a perceber a vida e todas as suas possibilidades. Em sua simplicidade, descarregou-nos do peso tirano do sublime. Em sua realidade, tocou, sentiu, amou e sangrou. Eis aí a supremacia da beleza média:

"Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvasiou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!"

31.12.13

A memória do porvir

Cerram-se as portas de mais um ano e inundam-se os bolsos da mente de novas resoluções. Pena que os bolsos são rasos, secam rápido. Tememos justamente aquilo que ansiamos: profundidade. As profundezas inexploradas do ser revelam os gritos dolorosos de nossa alma, os vazios obscuros e nossas doenças mais graves. Vemos também - por que não? - aquilo que podemos ser, uma vez redimidos.

Este tempo superficial me lembra de uma história que acho nunca ter ouvido antes. Um mito ameríndio de um século desconhecido. Diz assim:

"Um homem acordou em meio ao vazio, sem memória alguma. O vazio roubara-lhe tudo. Sem a memória, não saberia quem era de fato e o que buscava. Passou os primeiros dias sem se mover, simplesmente à espera, até que começou a sentir fome. Não lembrava que sentiria fome. Então, se pôs a mover sem uma direção determinada. O primeiro que encontrou foi o Ouro. Este dançava loucamente e joias preciosas escorriam em vez de suor. Quanto mais dançava, mais joias tinha. No entanto, se parava, as joias secavam. Convidou o homem à sua dança: se ele pegasse as joias antes que caíssem no chão, não secariam. Propôs dividir o que juntassem - e nunca parariam de juntar. O homem não teve que pensar muito para concluir que as joias não matariam sua fome. Seguiu em frente.
 O próximo que encontrou foi a Volúpia. Carregava um jarro sem fundo, que derramava infinitamente um pequeno fio de água. Contudo, toda água que entrava por sua boca escancarada escorria pelo vestido adornado. Propôs que o homem o acompanhasse: se entrelaçassem os corpos, a água não vazaria mais de seu vestido e poderiam saciar toda a sede. Disse ainda que assim que sua sede estivesse saciada, emprestaria o jarro a ele, para que também saciasse a dele. Novamente, o homem recusou: não estava com sede. Era a fome que precisava extinguir. Seguiu em frente.
 O terceiro encontro se deu com o Poder. Em suas quatro mãos carregava quatro cetros - de ouro, prata, bronze e carne. À sua frente havia um pequeno pilar com uma coroa enriquecida de rubis. Se vestisse a coroa, teria poder sobre todo o Vazio, mas se soltasse qualquer um dos cetros, a coroa desaparecia e só voltaria a aparecer quando segurasse todos os quatro novamente. Pediu então que o homem o acompanhasse, se colocasse nele a coroa, teria enfim todo o poder. Propôs fazer dele seu servo de mais alta confiança, tendo o privilégio de ser sempre o primeiro e o último a servir o rei do Vazio. Pela terceira vez, o homem recusou. Não teria sua fome satisfeita. Seguiu em frente.
 O último encontro se deu com a Memória. Ela andava livre, sem nada das mãos, braços ou pernas; sem dançar loucamente; sem nenhuma necessidade. Ela recebeu o homem e lhe ofereceu contar-lhe seu nome. Não seu nome do passado, mas seu nome do futuro, aquele que ele teria um dia. Antes que o homem aceitasse, ela advertiu-o: Este nome não teria efeito algum ali no Vazio. Se pronunciado, apenas aumentaria sua fome. Para que pudesse usar seu nome, teria que deixar-se cair num poço logo adiante, um poço que não sabia se tinha fundo. Mas o homem não teve dúvidas. Tinha fome, fome de seu nome. A Memória entregou-lhe o que prometera e mostrou-lhe o poço. O homem se jogou e caiu por séculos e séculos."
O fim do mito nunca foi encontrado. De certo porque seu contadores originais nunca ousaram se jogar daquele poço. Tinham medo das profundezas. E continuariam sem saber seus nomes. Sem saber quem de fato eram e porque estavam ali.

Há boatos, no entanto, de alguém que subiu daquele poço. Era alguém tão cheio que o Vazio não o aguentava. Dizia ser o nome dos nomes e ofereceu a cada um daquele mundo um nome novo - não do passado, mas do porvir. Os donos daquele mundo se ofenderam e jogaram-no de volta no poço. Mas disse que um dia voltaria. E quando voltasse, não haveria mais Vazio. Só restariam aqueles com nomes. E tudo seria cheio.

28.11.12

palavra que mata

"...o falar dos tolos vem das muitas palavras" (Eclesiastes 5:3)

Antes algo sagrado, a palavra hoje perde seu gosto. Sim, eram sagradas essas mesmas letras que hoje espalhamos com tanta naturalidade. Não é para menos. As palavras têm uma função um tanto discreta, mas ao mesmo tempo crucial, na definição de nossa persona. Como uma cerca no pasto extenso, as palavras delimitam, consolidam, paralisam - e matam... Não há nada mais mortal que a palavra. À medida que gastamos mais palavras, morremos mais profundamente, nos esvaziamos. Se as palavras são, geralmente, significados peregrinos, proferi-las significa retirar de nós todo seu significado - deixá-lo livre. Libertamos a palavra - e nos aprisionamos.

Sabe-se de uma lenda há tempos perdida acerca de uma tribo ameríndia, que por aqui vivia muito antes de incas, xavantes, maias, astecas, tupis. Não se sabe seu nome porque não tinham, não podiam. Dar nome a alguém representava sua morte - do nomeado e um pouco do nomeador. Por sinal, pouco falavam. Cria-se que cada homem tinha vida equivalente a cem palavras - e as mulheres, cinquenta. Contavam fielmente cada palavra proferida. Utilizavam as palavras de forma tão sábia e bem colocada que estas adquiriam poderes de cura, destruição, bênção, maldição - e, em raras oportunidades, criação. Nenhum povo usou menos as palavras, mas também nenhum usou melhor. Quando a contagem de palavras atingia seu limite, realizava-se uma cerimônia ritualística: o homenageado era sacrificado após um longo ritual de purificação; não podia uma carcaça viver; não pode o corpo permanecer uma vez que se esgotaram as palavras. O corpo era queimado e, então, davam-lhe um nome; um nome sem letras, um nome composto pelas diversas variações de silêncio que eles conheciam tão bem. Só nomeavam os mortos. Sabiam...

"porque a letra mata e o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6)

Nenhuma palavra pode ser desdita, revogada. Nem a vida que com ela vai. Morreremos todos, então, pois bem - não é nenhuma novidade. A graça está em saber morrer. A morte traz com suas asas negras e infames o medo; carrega no seu dorso a dor; transmitem com suas garras o sofrimento. O velho abutre é silencioso e paciente, atraído pelo cheiro dos corpos pútridos. A última coisa que leva consigo é a esperança. E esta não pode deixar-nos. Não precisa ser assim. Não precisa.

"Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor enquanto ainda éramos pecadores" (Romanos 5:8)

O preço da morte foi pago. O pássaro negro foi destituído de suas forças. No entanto... ele continua aí, à porta. Pairando. Esperando. Maquinando. A morte não abandonou nosso encalço e ainda persegue com violência. Ela está em cada palavra, em cada suspiro que exala de nossos corpos. Continuamos com uma certeza em vida: a certeza da morte. Mas a graça está em saber morrer. Não precisa ser assim. Não precisa. O velho abutre iniludível pode vir, mas não deve levar consigo a esperança...

"Pois sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu, foi justificado do pecado. Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos. Pois sabemos que, tendo sido ressuscitado dos mortos, Cristo não pode morrer outra vez: a morte não tem mais domínio sobre ele. Porque morrendo, ele morreu para o pecado uma vez por todas; mas vivendo, vive para Deus. Da mesma forma, considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus." (Romanos 6:6-11)

A morte virá, inserida em cada palavra. A todo momento - morremos. A graça está em saber morrer. Afinal, é preciso morrer para ter vida. É necessário se esvaziar de restos para ser preenchido. A cada palavra me esvazio mais. A cada letra, sou despido do que é inútil. Quero que vá. Quero ser vazio, um grande nada. Assim e só assim serei completamente preenchido pela vida - vida plena. A morte vem, sim, e com ela traz a esperança. Mato-me todos os dias até que minha existência seja resumida à mais plena, imensurável e inabalável vida. A Graça ensina a morrer - para viver.

"Quem tentar conservar a sua vida a perderá, e quem perder a sua vida a preservará" (Lucas 17:33)

5.4.12

Deus ama as aranhas

Há quem diga que as aranhas são, de todos os aracnídeos, artrópodes ou animais pequenos, de todos os campestres, urbanos ou desérticos, de todos os céfalos, bicéfalos ou acéfalos, bípedes, quadrúpedes ou polipedes, vegetarianos, carnívoros ou vampíricos entre até aqueles que fazem greve de fome, entre animais dos céus, colinas, rios, pântanos, vasos ou cantos de escada, entre inteligentes, "com dificuldades" ou desprovidos de toda e qualquer faculdade mental, entre todos os animais animados, tediosos ou irritantes, entre os seres que se multiplicam, reproduzem ou usam preservativos, entre os fantasiosos, míticos ou simplesmente irreais, machos, fêmeas, indecisos ou inexistentes, grandes, pequenos, gigantescos ou minúsculos, coloridos, retrô ou degra, maléficos, bondosos, culpados com ou sem dolo e até os inocentes - se existirem -, enfim, de todos os seres contidos ou não no Reino Animal, os mais asquerosos.

Mas por quê? Quem diria tamanha estupidez? Quem poluiria o grandioso mar de ideias do ar com tamanha insolência? Ou ainda, quem seria tão preconceituoso a este ponto?

Digam o que quiserem! Mas as aranhas são sim, de todos os aracnídeos, artrópodes ou animais pequenos, etc., etc., etc. os mais asqueroso. Diria até mais! - os mais repugnantes - oh, céus! Prendam-no!

Um momento, um momento... tenho provas - impossível! - não, tenho mesmo provas!
Vejam só, estes bichos asquerosos são mais do que desenhados para assim serem. Suas pernas, como todo artrópode, são divididas em uma série de articulações, mas retorcidas a um ponto de extremo incômodo. Partem do corpo para cima, invariavelmente, num ângulo invejável, mas caem bruscamente, desrespeitando toda lei física, estética, matemática e filosófica antes conhecida. Dobram-se mais, e contorcem, se contorcem até mergulhar oito pontas peludas no solo. Alguém já viu algum outro artrópode tão inconveniente? - as formigas... - não, nem continue! Poupo-lhe de usar tal argumento antes que se envergonhe. Olhe só para as formigas! Sim, suas pernas também tem articulações (como bem disse anteriormente, se tivesse prestado atenção), mas não se trata especificamente delas, mas da forma com que se comportam. As formigas, insetos tão admiráveis e dignos de respeito (não acredito que iria mesmo fazer tal comparação), ainda nos agraciam com algumas curvas. E se, porventura, tiverem no mínimo um ângulo reto, é porque lhes são permitidas devido ao seu intenso trabalho diário, coitadas. Voltando... agora ao céfalo-tórax. Que construção mais horrenda! Nem mesmo os monstros mais temerosos de Homero eram audaciosos a este ponto, sempre tiveram ao menos uma cabeça com uma mínima separação entre esta e o corpo. Mas imagine só, ou melhor, não imagine, veja como é intolerante esta forma, que junta tudo em um só, com seus inúmeros pares de olhos (para quê tantos?) e suas presas infalíveis. Sim, estas doloridas castigadoras, penetrando corpos, independente de seu tamanho, capazes de liquefazer todo o interior de uma pobre vítima e, sem respeito algum por sua alma, sugá-la! Sugá-la! E então, por fim, vem aquele abdômen, uma fábrica incessante de armadilhas e enganações, com insolúvel proporção, dando-nos a constante sensação de desequilíbrio. Este bicho, digo (e antes tenho de dizer que estou admirado pela falta de interrupções), foi todo feito para ser inadequado.

No entanto, sei, virão seus defensores. E direi que, em sua maioria (com exceção do pobre homem que me ocupou com questões ignorantes anteriormente), estão certos. As aranhas tem uma riqueza de diversidade nunca vista em nenhum outro animal - e, quiçá, nunca mais existirá animal tão diverso - sim, tenho de concordar. Suas cores são inacabáveis, a variedade de suas espécies impossíveis de serem apreendidas, seus tamanhos todos distintos, com proporções inigualáveis. A sua própria anatomia nos mostra uma riqueza de ângulos e formas, retas e curvas e nos leva sempre a pensar o inesperado. A engenhosidade de suas artimanhas é invejável, na tecelagem daquela pegajosa e trapaceira teia, mais forte do que aço e mais maleável que algodão. Os desenhos que nelas encontramos formam as mais curiosas figuras e sua caça inteligente, sem sair do lugar, nos faz repensar na eficácia de nossos métodos - sabia que iria mudar de ideia! - arre! Mudar de ideia? Só porque sei reconhecer as qualidades de meu objeto de crítica não a anula por completo, muito pelo contrário, mostra a imparcialidade de minhas decisões e resoluções, prova que conheço o meu alvo e fundamenta minhas críticas a seus defeitos. Concluindo, confirmo sim: as aranhas são, de todos os aracnídeos, artrópodes ou animais pequenos, etc., etc., etc., os mais asquerosos e repugnantes.

Existe, entretanto, uma terceira corrente que diria: "de fato, as aranhas tem todo o design para serem criaturas horripilantes e inadequadas, e parece que se aproveitam disso. Não seriam elas, então, belas, no sentido de que cumprem seu papel de inadequação, sendo justamente tanto inadequadas quanto possível?" Admito que essa pergunta me intriga, pois levaria a seguinte: "Por que Deus projetou criaturas tão horrendas, sabendo que assim seriam? Será que ele as deu a função de serem exatamente horripilantes?". Confesso que não a sei responder, a pergunta. Mas sou levado a pensar: tendo Deus feito todas as coisas, por conseguinte foi ele que fez todas as aranhas. Gastou um pensamento particular em cada espécie, brincou com as cores, ajeitou as patinhas, o número de olhos, os desenhos e tatuagens diversos, adaptou-as a - quase - todo tipo de ambiente, deu a cada uma delas uma forma diferente de trançar teias, de atacar suas presas, de lidar com o instinto da sobrevivência. Enfim, sou levado a crer que fazer aranhas era algo de seu gosto, que gastava horas e horas imaginando uma forma outra de criá-las, até povoar toda a Terra com todo tipo de espécie. Ora, uma criatura assim espalhada por todo o globo, tão diversificada, na qual ele deu tamanha atenção particular... diria, por fim, que Deus ama as aranhas... talvez até a ponto de morrer por elas.

24.11.10

sobre Asia Bibi

Há cerca de um ano e meio, uma mulher resolveu matar a sede de seus cinco filhos, dela e de seu marido no Paquistão. Providenciou água vinda do poço da vila onde morava, encheu o jarro normalmente usado para esse fim, que fica sempre ali ao lado e, sem saber, sentenciou-se à morte. Vista por outras mulheres da vila, foi acusada de profanar o jarro de uso comum pois era cristã num país muçulmano. Tais mulheres foram ao clérigo da região e acusaram Asia Bibi de blasfêmia ao profeta Maomé, crime passivo de pena de morte no país - que, por sinal, não necessita de testemunhas que confirmem o fato. Asia Bibi passou mais de um ano presa, sem saber se sua vida seria ou não tirada no dia seguinte.
Ela não foi a unica vítima - nem a última - a ser condenada à morte por razões religiosas. Tivemos recentemente no Irã o caso de Sakineh, que recebeu pena de morte por adultério, sendo que seu marido já se encontrava morto. O problema se deu pois culturalmente no país uma mulher não deixa de estar casada por ser viúva. E traição conjugal resulta em morte por apedrejamento (prática encontrada inclusive na Torá judaica e também no Antigo Testamento cristão).
Situações assim causam espanto na nossa cultura ocidental, que supostamente são construídas sobre a base dos direitos iguais a todos os humanos, não obstante sua classe, raça ou credo. Facilmente somos impelidos a nos indagar "como podem fazer decisões tão cruéis assim por tão pouca coisa?". Alguns mais radicais sugerem ações mais assertivas de seus governos a fim de estabelecer a verdadeira paz no mundo e findar a tirania. Mal percebemos e já estamos invadindo um novo Iraque.
Eu acredito no estatuto dos direitos humanos e sinto indignação diante de ocasiões como as citadas, afinal, como cristão, prezo pelo amor, respeito e vida, a partir das quais rejeito a possibilidade de julgar uma outra pessoa por seus erros, sabendo que também cometo meus próprios pecados, muitas vezes piores. Os julgamentos de Asia e Sakineh para mim transpiram injustiça, mas será que com isso ganho o direito de impor a minha própria justiça? Se acreditamos que as pessoas são intocáveis em suas escolhas - ou seja, que não podemos discutir seus gostos ou suas concepções de certo e errado -, não podemos isentar países como Paquistão e Irã dos mesmos direitos.
Mas então me diriam "é diferente! O certo ou errado das pessoas de meu país não ferem a ninguém, uma vez que não ferem nossa lei. Lá?! Lá sim, a lei é injusta e deixa passar marcas, mortes e rusgas!". Quanta inocência um pensamento assim. Só mostra como não conseguimos enxergar além de nossa própria cultura, como é quase impossível tirar os óculos com quais estamos desde pequenos. Não culpo ninguém por isso - eu mesmo tenho essa extrema dificuldade -, mas devemos ter a noção de que nem todos consideram como verdade as nossas verdades - afinal, os crimes de Asia e Sakineh são vistas, aos olhos de seus povos, como ofensa ao seu país, uma vez que estes decretem religiões oficiais. Por um lado, temos o direito de divulgar nossas verdades ao acreditarmos que essas trarão consigo o bem, mas por outro, os próprio estatuto dos direitos humanos não permite que imponhamos nossas crenças - sejam elas espirituais ou somente morais.
Como posso então buscar a justiça se não posso aplicá-la? Num cenário nacional - mais especificamente no Brasil - podemos aplicar as verdades da igualdade, uma vez que a mesma é apoiada pela constituição. Mais ainda, podemos e devemos impor as verdades da honestidade, do cuidado aos pobres, da luta pela prosperidade de todo o país. Num cenário internacional, as linhas são levemente apagadas, uma névoa cobre o chão impedindo-nos de ver nossos pés. Não significa que não devamos arriscar nossos passos, nos posicionar através de pressões políticas, abaixo-assinados, de até mesmo decisões mais radicais como sanções ou boicotes. Porém, sinceramente, não sei qual a linha que permite uma ação incisiva - ou se há essa linha. Não concordo com invasões como a dos EUA no Iraque, contudo ao mesmo tempo dói meu coração negar uma intervenção externa nas vilas africanas que castram suas meninas, por questões culturais.
Como cristão, também não creio em várias verdades, apenas uma - não raramente negada pela nossa cultura. O que significa que diariamente sou confrontado com situações que para mim são erradas, mas para grande maioria das pessoas não há problema. No entanto, como vivo num país laico - também supostamente -, não posso investir contra uma pessoa porque ela adulterou, ou humilhou alguém querido, pois tais coisas não vão contra a lei do meu país. O que está em minhas mãos é divulgar a minha verdade. Posicionar-me para que consigam ver onde piso em termos morais e espirituais. Meu Deus mandou-me que amasse a todos como a mim mesmo, depois de amá-lo acima de tudo. Contra essas coisas não há lei. Ao menos não uma presente no Supremo Tribunal de Justiça, mas que lei me protegerá de favorecer minha família ou meus princípios em detrimento do meu trabalho? Ou escolher educar sexualmente meus filhos para que sejam heterossexuais, sendo que vivo e estudo num ambiente onde isso pode ser considerado preconceito? O que digo é que todo dia sou obrigado a não impor minhas verdades, mesmo que eu possa apresentá-las (dentro de um determinado preço). Talvez assim também seja diante de países que acreditem que nosso mal é seu bem. Talvez não possamos impor, apenas nos posicionar e esperar, com o coração pulsante, que seus caminhos sejam alterados... Eu também tenho que conviver com amigos que tomam decisões ruins (para meus olhos e fé), sem forçá-los a mudar... apenas divulgando e esperando... É um lado cruel da realidade.

14.9.10

grandes problemas

olhe e pense...

[por ssilence in deviantart]
O mundo deve ter algo de errado. É fato. Ou talvez a cama (de casal) na qual acordo não seja suficientemente confortável. Quem sabe o clima seja o principal responsável por este peso enferrujado de agonia que me cerca - em mim e nos outros. A cada dia, um novo Sol, uma nova perspectiva. Os raios de luz penetram o quarto e podemos vislumbrá-los ou rejeitá-los com a cara amassada no travesseiro. A cada dia os pés - das seletas sortudas pessoas que podem - caminham por novos territórios - quem sabe alguns dias tocamos em partes da terra que nunca havíamos tocado antes e nem percebemos! Mas sempre há algo para nos distrair... sempre. Talvez os dias não sejam bonitos o suficiente, os pássaros devessem cantar mais, as ruas deviam estar sempre limpas e o vento sempre a bater no rosto - sem jogar o cabelo na cara. É fato. Deve ter algo de errado com o mundo.

7.7.10

Meu medo-próprio

O mundo em volta existe quase que sumindo. Pelo menos nestes momentos.
Seria demais arriscar um beijo? Ou ele também desvaneceria? Já não sei como saber. Muitos poetas já vasculharam por estes quartos sombrios que temos na gente, buscando definições de coisas que parecem nascer prontas, como tristeza, saudade, raiva, amor... Nunca fiquei satisfeito com nenhum deles - apesar do encanto que podem trazer suas palavras. É verdade que a busca insistente pode ter valido a pena (se não chegaram em boas respostas, pelo menos boas perguntas eles tem) e talvez eu mesmo seja impelido a fazê-la. Mas não hoje.

Hoje já é um dia diferente. Um dia sem você.
Certo... confesso que nunca passei um dia com você, mas não terei mais a sua companhia em meus sonhos - talvez nos pesadelos. Já nem lembro mais porque queria-lhe por perto. Não digo isso pelo que se passou ontem, mas pelo que se passa todos os dias; não só comigo, mas todos. Nascemos e pouco depois somos induzidos a esperar pelos outros. Veja só, todas nossas expectativas são direcionadas a um alguém; a todo instante, andamos, respiramos, compramos, comemos ou deixamos de comer por causa dos outros. As nossas decisões repousam sobre todo um chão de conselhos, aprendizados, ordens e olhares.
Somos escravos do outro.
No entanto, o humano raramente vive para o outro. Andamos, respiramos, compramos, comemos ou deixamos de comer sempre olhando para dentro, quase contraídos. Tendemos a sempre pensar através de nossa mente, olhar pelos nossos olhos - o que seria muito natural, se não dependêssemos dos que nos cercam. A conta apresenta diversas incoerências: o ser precisa do contato e aprovação do seu próximo, é regido por essas expectativas, mas nunca se lança a ele, fica preso em si mesmo. Ora, se as outras pessoas são importantes tão somente para alimentarmos uma imagem própria que aceitemos, por que ainda estamos grudados nela?
Somos escravos de nós mesmos.
E se, por um momento, não nos importássemos com o que pensamos sobre nós mesmos... estaríamos livres dos outros. E então, fugiríamos para um mundo próprio e solitário, enfim satisfeitos? Não... sumiríamos, assim como o mundo, se assim o fizéssemos. Se nos libertarmos da opinião dos outros, estaremos igualmente livres para nos desvencilhar da sombra do medo-próprio e nos atirarmos ao outro; servir... amar.
Só podemos ser verdadeiros se nos esquecermos? Bem, não é possível esquecer a nós mesmos... Mas se tivéssemos um lugar-seguro, um banco onde o medo-próprio pudesse descansar - e desvanecer com o tempo - passaríamos a andar, respirar, comprar, comer ou deixar de comer porque escolhemos, não por causa daqueles que olham sobre nós. E assim, passaríamos a perceber como as pessoas vivem e como poderíamos ajudá-las - afinal, por mais que estivéssemos libertos do julgamento exterior, não significa que deixaríamos de depender da presença de humanos à nossa volta.
E esse banco? poderíamos fazê-lo? Acredito que não... da mesma forma que não tivemos controle algum sobre nosso próprio nascimento, algumas coisas na vida não podem ser operadas por humanos. Está na hora de admitirmos que não nos dominamos... que a vida não foi feita pelo acaso e que o destino não controla os passos nossos.

Enfim, o que quero dizer é que te queria perto por causa de mim mesmo... e isso é errado. Quando te quiser por sua causa, voltarei.

19.11.09

Prática

Só gostaria de relatar como temos tanto pelo que agradecer. Nem percebemos, mas todo momento é um momento novo, diferente do anterior e todos eles nos mudam e transformam, nem que seja num mínimo de um sorriso. E em todos esses instantes estamos vivos, não importa em que estado... Se olharmos para os passos que damos com contentamento, não só aproveitamos o azul dos dias claros, mas também nos regamos com a chuva das tardes cinzentas e nubladas. Vale a pena. Muito.

27.9.09

Resolução de 27 de Setembro

Corei de ver a vida passar. E é incrível como ela consegue ser tão cruelmente bonita!
[Como não queria ver mais dois poemas seguidos, faço qualquer coisa aqui]

Suspiramos tanto e vemos tanta TV, parece que nada nunca vai chegar. Mas aí, um dia chega, e começas a se contorcer pra ver o mundo em 360 graus. Dá vontade de que tudo seja muito mais simples! Muito mais! Afinal, por que não apenas sobreviver (o problema é que só de fazer essa pergunta, já me vem a resposta, clara e óbvia, mas nada confortável...)?
Não sei realmente se é só preguiça.
No fundo, acho que não. É que me atropelaram de um ano para o outro (e por diversos lados). "Atropelar" parece sério demais, mas como não consigo (e não quero) achar outra palavra, fica ela mesma! Vem vários fantasmas juntos, e por mais que você não se desespere... você se desespera! A questão é: fazemos tanto para um dia sermos alguma coisa, mas na verdade não temos como descobrir o que seremos até sermos! Tantas coisas fazem parte de uma vida, cercada de muitas cores, muitos sons. Sempre quando algo te incomoda, há uma outra voz que te chama pra perto e te faz ver as outras cores que não se tornaram cinzas (por um tempo, porque é sempre por um tempo). Às vezes os passos parecem não convergirem para o mesmo lugar, mas o que? Somos ainda jovens e queremos saber o futuro?
O que me incomoda é que algo me incomoda, e não as outras coisas normais de gente normal (às vezes me trato como sendo extremamente diferente, mas pelo tom da minha voz, se vê a ironia e minha normalidade... Mas ser normal não significa que não se possa ter desejos extremamente anormais). Mas não vejo como chegar lá. Mas, pensando bem, eu sou míope, e as chances de eu enxergar ao longe já não são naturalmente boas.
Vamos ver no que vai dar (além de grandes piadas aos netos).

31.8.09

Vazio

Me peguei lendo algumas coisas que não entendia (na verdade, nos últimos vezes, várias são as vezes que não entendo quase nada do que leio), mas continuei, e continuei não entendendo nada. Algumas parecem estar no limiar de ser algo estrondosamente interessante, mas se desvaneciam num ponto final... e mais nenhuma palavra depois. Sinceramente, não sei se gosto ou não que terminem assim. Por um lado, me agarro a cada palavra que salta aos meus olhos e minha mente voa com elas, deixando-as voltarem aos seu lugar apenas depois de um longo passeio (outra coisa que tem acontecido muito ultimamente); mas por outro, tudo que antes imaginara nunca ia se tornar realidade - e estas são as partes dos sonhos que ainda não consegui lidar... encará-los como sonhos.
Me peguei pensando sobre quem queria ser. Um hiato no tempo, permitindo a imaginação das pessoas voar e flutuar pelo espaço-nada-contínuo. Ou um tempo cheio, onde poderiam ver o que realmente está ali, o que realmente importa. Aqueles que me conhecem, conhecem também minhas prioridades, o que escolho ser.




Afinal, serei [ou seremos] por pouco tempo, muito menos do que podemos acreditar. Mas ainda há aqueles que acreditam num Tempo onde não haverá tempo, e tudo o que desejamos um dia ser, passará do desejar para o contemplar. Há de vir um Tempo, onde o tempo é infinito, e que seremos
cheios,
cheios,
cheios,
não havendo espaço para hiatos.

17.6.09

...

"Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you"

Ainda bem que tem alguém que não desiste...

12.6.09

Recomeço

sub m 1. Parar de mentir para si mesmo e perceber que já é hora 2. Quando há indignação sobre seu próprio ser, mas amor a ponto de se deixar merecer melhoras 3. Parar a caminhada e observar os seus passos errados, mirar na direção daquelas conhecidas pegadas e segui-las para onde realmente se deve ir 4. Perceber que não se tem mais forças para tentar fazer o bem, vendo em si mesmo as mais horrendas marcas que jamais em sã consciência queria se causar (mas as fez... mais de uma vez) e se render por completo, morrendo mais uma vez para si mesmo 5. Popularmente conhecido como Perdão

"Aquele que pouco perdão recebeu pouco amou... Quem muito ama, muito foi perdoado." 

8.6.09

Alguns Fios Soltos

Entender o que se passa. Que essas letras, essas simples letras, essas mesmo que passam rapidamente por nossos olhos, cada uma delas, cada uma foi separada. E no desespero de se fazer o certo ou o não-errado, algumas escapamh e cfausamj congfusãob.

Acabei de escrever mais algumas, mas já as apaguei e nunca mais se saberá o que existiu nesse mesmo espaço.

Tenho que dizer: as coisas nunca fizeram tanto sentido.

Por mais que fujam
Não se perdem
Pois cada uma delas
Correu para onde devia ir

Para sua cama,
Seu repouso,
Pra depois partir.

As letras se encaixam no mais ordinário gesto. Num simples comando de voz. Voz inaudível, devo dizer. Mas uma voz que carrega as palavras num rio de harmonia, um rio sem aparente direção, mas que vai exatamente onde pretende: para todos os lados.

Tenho que dizer: vidas mudam

E elas inundam,
Carimbam,
Não respeitam.

Ainda bem

Se fazem de bobas,
Entorpecem, obedecem
E não temos mais chance

Ainda bem

E assim se fez um simples raiar de dia. Sorrisos molhados de olhos tropeçavam-se uns nos outros. Não se sabe dizer o que existia ali, vi somente gente, mas senti mais. A música enchia o ambiente e o coração. A cabeça não mais funcionava, porque nada mais a preocupava, apenas queria curtir a alegria. Os pés? Ah, eles já dançavam sozinhos (E para aqueles mais acanhados,  pelo menos marcavam compasso com batida no chão). Algumas confissões (de amor, lógico). Nenhum rumor ou dúvida. Agora, entendi.

Só se entende, quando se conhece o Dono das Letras

3.6.09

(des)Graça

Acho incrível como pontos conseguem se divertir! Tem tanto o que fazer, e se é tão pequeno. Mas mesmo assim... Há música, mesmo que não se mereça. Há goiabas, mesmo que seu gosto seja tão supremo. E os pontos aproveitam, sem nem perceberem seu tamanho. O quanto se é permitido e o quanto se torna pura insolência?
[...]
Sou um ponto
A mim foi-me permitido viver. E muito mais.

Só não me deixo.
Desleixo.

Mato-me por dentro, mas não quebro as barreiras.

Quebre-as por mim...

18.5.09

Já os segundos

Se fizeram inesperadamente. Posto no chão (graciosamente, devo falar, e em todos os sentidos), sentiu finalmente os pés e os dedos. Via agora que quem o atacava era ele mesmo, e atingindo agora a razão, não sabia mais o porquê. Mas sabia que assim que os pés encostaram na grama, madeira, mármore, seja lá o que for, a cabeça já deu uma escapadinha até as nuvens (agora que não havia mais mãos a impedindo, tinha que aproveitar). Tudo tinha o mesmo cheiro do velho, das coisas que já se conhece, e percebeu que ainda não era hora para se fazerem novas todas as coisas, mas que se podia fazer muito com as antigas.
De papel e lápis na mão (velhos), começou a usar todo Ele, todo seu, na dança onde rapidamente se mistura o negro com o branco. Voltou a sonhar.
Percebeu que não só tinha permissão, mas era a coisa mais sensata do mundo fugir por uns tempos do próprio mundo.

30.4.09

Amor

Pensei em escrever milhares de coisas sobre esse último agradecimento do mês.Vieram-me várias, sim, mas nenhuma é o suficiente, ou parece que nenhuma consegue descreve-lo ou chegar a sua grandeza. Não sei... É uma coisa que ainda não consegui explicar direito (talvez nem perto do "direito" estou), mesmo com inúmeras teorias correndo por entre minha mente, algumas descobertas dia a após dia, mas o Amor continua sendo uma coisa tão extensa, inexplicável... louca, na verdade.

PS: Sei que estou quebrando a jura que fiz no primeiro dia de Abril, mas por ser um tema que rompe barreiras, me senti na obrigação de romper algumas.

...
Talvez... não, ainda não...


Hum... primeira coisa, você pode estar pensando que não é tão complicado assim, mas talvez você tenha por referência o amor e não o Amor (e sua diferença é bem maior que apenas a letra maiúscula). O primeiro, podemos sentir num momento, e no outro temos a sensação de desaparecer quase que completamente. O segundo, não se trata muito de "sentir"... como vou explicar... é mais uma questão de opção, um princípio imposto em sua vida que, não importa o momento que você passe, faz com que você ame (não "sinta" amor, mas ame). O primeiro é geralmente utilizado pra tentar expressar um sentimento por um outro alguém (alguns ainda sismam em usá-lo para objetos, mas no fundo todo mundo sabe que não é possível). O segundo, usa-se para expressar a Vida e todas as suas situações (inclusive o "outro alguém").

Mas, por incrivel que pareça, o problema maior não é a definição... É como fazer pra ter esse Amor, capaz de mudar completamente cada olhar, lembrança, palavra, silêncio, sorriso, manhã ou noite. Fazer de cada momento seu, um momento intensamente vivido, de forma que tenhas CERTEZA, que não precisas de mais nada, que toda a grandeza que existe no mundo já foi alcançada da maneira mais inóspita possível... pois realmente, nada tem valor algum, quando comparado ao Amor. Uma dica: o Amor, é humanamente impossível...

"Ainda que eu falasse a língua dos homens e anjos[...] e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda tivesse toda a fé, de maneira a tal que transportasse os montes[...] e ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada seria" - 1 Coríntios 13:1-3

Obrigado, Deus, pelo Amor, que não foi feito para que se entendesse, mas para que fosse compartilhado (maravilha das maravlihas).

14.2.09

O Sol Está Aqui Por Perto

Ávida por mais, abriu o livro e se concentrou nas palavras. A cada segundo que seus olhos fitavam -sem piscar- o livro aberto, uma enchurrada de graça envolvia seu coração, deixando marcas e lembranças, apagando manchas e dores. Cada letra impressa em tinta preta naquele pedaço fino e insignificante de papel martelava sua mente, fazendo-a abrir-se por completo, dando vazão aos sonhos e amores. O peito não se continha, parecia explodir, mas por naturalmente não poder se despedaçar inteiro, converteu a emoção toda em lágrimas. Fechou os olhos. A alma estava saciada. A sala olhava para ela comum sorriso cativante. E descobriu também -ao secar os olhos- que o Sol também acompanhava a sala no seu gesto, além de desviar todos os seus raios rubros para a menina, formando um caminho de luzes, que parecia que a levaria à felicidade e satisfação plena. Pode ser que sim, afinal, ninguém nunca chegou ao Sol para descobrir.
Ou já chegaram?
Muitos já chegaram e voltaram à Terra, mas diferentes. Brilhavam em seus rostos e olhos. Por vezes, a brilho desaparecia -e a razão só se pode saber pelas próprias pessoas- mas sempre voltava, e continuava a brilhar mais e mais. Tudo isso porque o Sol resolveu chamar algumas pessoas para conhecê-lO.
O rosto da menina começou a brilhar. Seu coração sorriu, e seus lábios o imitaram.