25.12.11

O Experimento - Natal

O bom velho levantou penosa e lentamente da cadeira. Faz tempo que já não tinha aquela força e há mais tempo ainda as dores no joelho incomodam. No movimento, derramou um pouco do café que trazia, queimando os dedos. Esboçou uma praga, mas se conteve. Afinal, era Natal.
Chegou enfim à porta e abriu ao visitante:
- O que deseja?
- É você?
- Eu? Eu quem?
- Aquele de que todos falam.
- Não... - essa pergunta nunca deixou de deixá-lo fora de si, no entanto, pensou no visitante e na sua provável confusão, respirou fundo e mudou a resposta - Sim.
O homem peculiar que esperava em meio à neve mostrou indecisão, ou descrença ou qualquer coisa do tipo. Sei que ficou calado por quase um minuto, como se buscasse entender a resposta dada, com medo de fazer nova pergunta
- Posso entrar?
- Claro, desculpe minha falta de educação, você deve estar congelando. Venha, sente-se aqui, ou em qualquer lugar que lhe agrade. Volto num instante com chá. Você prefere limão ou canela? Eu particularmente prefiro o segundo. Ou quer café? Certo, apenas água. Volto num instante.
O homem vestido de preto aproveitou para observar a sala. Era pequena, com móveis antigos e rústicos, como de costume naquela região. Na lareira crepitava um fogo aconchegante, de onde também vinha a maior parte da iluminação do espaço. Duas poltronas repousavam, uma de frente para a outra, com uma mesinha redonda de mogno ao centro. Havia apenas uma janela, não muito grande, de onde podia-se ver um poste iluminado lá fora. Um porta retrato descansava em cima da lareira.
- É casado? Perguntou quando o velho voltou com sua água.
- Sim... e não, novamente. Ela morreu há dois anos.
O homem sentou-se numa das poltronas e deixou o chapéu preto sobre a mesa. O velho moveu-se em sua direção, oferecendo-lhe o copo.
- Então, o que posso fazer por você?
- Faço parte de um grupo de pesquisa. Estamos estudando os humanos. Nosso estudo é bem extenso. Fazemos testes comportamentais para melhor entendê-los, mas para isso é preciso levar em conta uma grande quantidade de material histórico prévio ao objeto. Além da história, é preciso conhecer as crenças individuais de cada objeto - estudo interessante - ou mesmo as não-crenças. Finalmente, também percebemos que os objetos são afetados por um conjunto de padrões e crenças solidificadas no emaranhado de ideias que carrega uma sociedade. E cada sociedade tem as suas. Contudo, como coordenador no departamento de estudos humanos do ocidente, não pude deixar de perceber diversas similaridades entre os mais variados círculos sociais. Ou seja, existem crenças e padrões recorrentes em muitas das sociedades que se encontram a oeste da Rússia. Um deles, é o seu caso - o bom velhinho ajeitou-se na poltrona e tinha ar de quem ainda nem começara a entender -. Não é de fato surpreendente. Afinal, existe uma espécie de conexão geral entre todos os países do globo, especialmente entre aqueles que mantem certos pilares filosóficos em comum, como é o caso da maioria dos povos ocidentais. Há também uma densa carga histórica que ajuda a explicar por que o índice de congruência cultural - chamamos de ICC - entre os povos de minha jurisdição é relativamente alto. Ou seja, não é comum que eu tenha que verificar fatos como este em pessoa. Porém, é a natureza do fato que me desperta a curiosidade. Veja bem, há diversos tipos de comemoração neste dia festivo em meio aos povos em questão, mas quase todos de alguma forma acabam por mencionar você, positiva ou negativamente. Pois bem, exigi uma pesquisa mais detalhada sobre sua pessoa e encontramos um vasto material, mas nem tudo era coerente. Decerto sabemos que existem informações enganosas ou incompletas, ou até mesmo ingenuamente compostas, no entanto havia uma parte mínima do acervo que contava uma versão completamente diferente do material mais recorrente. Tamanha disparidade chamou minha atenção e resolvi verificar alguns dados por mim mesmo. Quando relacionei as informações que tínhamos com os dados biográficos mais verossímeis, cheguei a - aí sim - surpreendente conclusão de que a grande maioria do material estaria equivocada. Posso imaginar que situações assim ocorram quando há necessidade de fazer humanos acreditarem em algo diferente da realidade para que haja um bem comum. Mas neste caso, é exatamente o contrário. A história que até agora tenho constatado ser verdadeira - e que pouco ou quase nada circula - é justamente aquela que, pelos cálculos, traria um maior desenvolvimento à sua raça. Portanto, julguei ser necessário que viesse em pessoa esclarecer tamanhas dúvidas. Você poderia me explicar?
Foi a vez do velho ficar em silêncio por quase um minuto completo. Depois, soltou uma longa e gutural risada, seguida de uma sessão de tosse.
- Você é uma das coisas mais interessantes que me aconteceram, com certeza! Se minha esposa estivesse aqui ela certamente já haveria mandado-o para fora, alegando que não suportaria tantas asneiras. Mas, sendo quem sou, não vejo razão para não acreditar no que você me disse. Além disso, tem algo estranho e diferente nos seus olhos. Quase consigo sentir suas dúvidas, sua honestidade. Eu só lamento que... eu temo que não saberei responder suas perguntas.
- Quem sabe se eu me fizesse mais claro. Você participa de alguma forma do fornecimento dos presentes?
- Não, não, céus! Ha, ha, ha.
- Mas e na confecção dos ideias que circundam as festividades?
- Bem, veja... não é raro acontecer de alguém um dia ter uma ideia boa e também uma boa intenção, mas outra pessoa, que não está comprometida com as mesmas boas intenções, usa sua ideia de forma leviana e às vezes maquiavélica. Essa é mais ou menos a minha história. Ou a história do Natal.
- Entendo. Mas, por favor, explique-me. Qual era a sua ideia?
- Eu simplesmente sonhei um dia ver todas as pessoas se importando mais com os outros do que consigo mesmas. Para exemplificar isso, comecei a dar presentes feitos por mim, minha esposa e meus filhos a quase todas as pessoas que conhecíamos. Mas os presentes não tem nenhum significado em si mesmos e... - abaixou a cabeça, abatido - dou-te certeza absoluta que nada tenho a ver com o que acontece hoje... no mundo.
- Estou muito agradecido pelas respostas. Tenho que ir imediatamente reportar e documentar o que ouvi. Obrigado pela água. O homem peculiar ia se retirando em direção à porta, quando foi interrompido pela voz do velhinho:
- Um dia ainda vai acontecer, sabe!
- Desculpe, acontecer o quê?
- Todas as pessoas se importarem mais com os outros do que consigo mesmas... Sei que não sou eu que farei com que isso aconteça, mas ainda assim acredito que um dia este meu sonho se realize, mesmo que não esteja mas vivo para vê-lo.
-Entendo... Com todas as pesquisas que fizemos até agora, posso afirmar que a esperança é o principal combustível do humano... como é claramente no seu caso. Para o bem da sua raça, também tenho a esperança que sua visão se concretize. Obrigado, Nicolau.

28.11.11

Barco Eterno

Quase sem velas, paira sob as águas
Deslizando, pesado e lento.
O capitão, absorto em solidão e fracasso,
Iça, puxa, cansa e geme.
Corre louco em redor, bradando,
De punhos cerrados às vagas estrelas,
Quase sem respostas ou nitidez ficam
Longe e inalteradas, quase indiferentes.

Mas o homem-do-mar sabe
Que delas vêm a vontade sobre o medo
Na esperança última da luz.
Qualquer uma! Morte ou vida!
Porém...
Nada...
Somente um pálido olhar
De quem está com preguiça.

E vai ele, marujo condenado,
Dobrando, passando, tremendo e gritando.
E nem mesmo obtém resposta
De seu único companheiro, frio e inflexível.
Não dobra nem à direita ou à esquerda,
Num mesmo ritmo semi-morto,
Lento demais para revirar a mente de um são,
E rápido o suficiente para dar passo
A uma nauseante inquietação
De quem nunca para,
Nem mesmo para morrer.

Colocado ali um dia
Com a tal benção ou maldição
De nunca afundar - por inteiro.
De nunca perder seu timoneiro,
E eternamente vagar pelo mar.
Visão radiante... para um iniciante...
Que distorce na primeira tormenta.
E chocando com pedras e pedras,
Atrai o desejo último - quiça inevitável
De parar, enfim, parar...

[escrito em Florença]

16.8.11

de dentro... para dentro

sabe, meu mundo, como os pés movem
e não raramente aparecem errados?
a gente fala coisas tortas
e nelas crê,
sabe?

cada giro meu
torna ao mesmo lugar
e insisto em girar.

os dias vazios transbordam as semanas,
numa vontade niilista de viver só
com choros que não caem
sabendo do erro.
sabendo...

o desejo é de ter perto
na distância de um sorriso
uma presença de amigo.

enquanto o pensamento vem mutilado
das tormentas todas de dentro
passando aperto no peito
para morrer, em maré,
de saber,

eu monto pilhas e pilhas
de trapos esparsos
sem, espero, tombar

e não ofereço. não! não ofereço!
assaltado por mim, guardo,
e o peso empurra
para as águas,
fundas

olha, meu mundo,
e percebe o erro?
insisto no terceto...

mesmo aqui as palavras se agrilhoam
viciadas no torpor do pensamento
que, machucado, ilude o resto
a fim de ferir mais
fundo

não posso dizer somente
aquele medo latente?
não sei ser só...

28.7.11

Ela vai casar

Sempre que passava a mão nas flores do jardim se sentia assim, como elas. Seu vestido florido ajudava, cabelos morenos balançando. Uma mecha escorria retorcida pelos olhos, apontando ao nariz gracioso. Quando a porta abriu, abriu também um sorriso. Tanta história passava por aquele dia, os sentidos se misturavam todos de tão intensos e densos. Aquele homem que abria caminho pelo passeio a mudara desde o primeiro encontro.
Num começo com muitos doces e poucos amargos, trocavam palavras de afeição, como amantes mesmo fariam. Tempo juntos era sempre lucro e os dois se deliciavam com os minutos. Se o céu estava limpo, era uma grande oportunidade de saírem ao mundo, com olhos curiosos e sedentos. Os momentos acompanhados marcavam a história de cada. Provavelmente veriam os parques, as árvores e os pássaros alguma vez na vida, contudo o coração torna as coisas tão mais relevantes quando as vemos ao lado de quem se ama. Se o céu escurecia, era a oportunidade perfeita de cerrarem a porta de casa, procurando jogos e brincadeiras infantis. Agradeciam a chuva. Nem sequer o tempo que passavam separados era desperdiçado. Seus afazeres todos ganhavam especial tempero pela sensação extasiante de um sei-lá-o-quê incontido que banhava seus dias, seus sorrisos e choros.
Sim, houve muitos choros. Até certo ponto, era coisa natural, porém foi piorando e as cosias acinzentaram de vez na primeira crise. Era doença. Tinha também imaturidade. O que lhe ardia era como a imensa maioria das vezes, ele estava certo de fato, e ainda mais, quando estava errado, ela tinha de se comportar como se fosse o contrário. Não suportava! Era como trezentas mil calúnias à sua existência, um presente atestado de invalidez moral. Quando as doenças, passaram, a imaturidade continuou. As brigas eram tão constantes quanto os abraços. Os dois cresceram, os dramas também. Fizeram tantas viagens, para dentro ou para fora que ao que tudo indica não conseguiriam lembrar de todas. Mas, não importa o estado em que iam, continuavam selando seus calendários com seus bons momentos.
Descobriram que era mais ou menos assim. Enquanto os poetas e escritores displicentes escreviam sobre o amor, eles o vivam - todos os seus lados. Havia dias - e como havia - que não se olhavam. A raiva cerceava os quartos, num pulsante alerta a todos que andavam pela casa. Ele, sempre mais maduro, era responsável pela maioria das iniciativas. E ela sofria com isso. Tentava sempre estar mais preparada, melhor para ele, mas aos seus olhos falhava incessantemente. Assim, frustava-se e recolhia-se como animal ameaçado, sentidos atentos à qualquer demonstração que possa ser interpretada como agressiva. Odiavam seus erros e viam-nos projetados no outro. No entanto, com esperança persistente, reconciliavam-se. Buscavam amar - e suportar os defeitos.
Tudo chegou a este momento. Os cabelos esbranquiçados dele estavam cada vez mais ralos. E em questão de dias, entregaria ela aos cuidados de outro homem. Ela foi ao seu encontro, pronta para sua última caminhada com ele... como solteira:
- Bom dia, pai. Vamos?