5.2.17

sobre sonhos



Os sonhos são a energia motriz do ser humano, pois são a manifestação mais vívida de esperança. O homem persegue seus desejos mais íntimos com todo seu vigor na expectativa de que neles encontrará a paz. Enquanto trilha seu caminho, nada é capaz de o abalar – é intenso, implacável e perseverante. Quando o caminho chega a seu fim, no entanto, percebe a futilidade de sua busca. Aquilo pelo qual tanto lutara não passa de uma peça decorativa: produz admiração dos outros, mas é essencialmente vazia.

O cristão aprende que sua esperança é Cristo. Nele está a plenitude de todas as coisas; ele é o mistério revelado do universo; a imagem do Invisível; o fim de todos os meios e o começo de todo fim; sem ele, nada existiria, existe e existirá. A esperança do cristão é a vinda do rei do Reino, instaurando a paz completa nos corações humanos. Não há esperança maior. No entanto... O cristão desaprendeu a sonhar. Desiludido dos aperitivos humanos de felicidade própria, deixou de correr vigorosamente a trilha que lhe foi confiada. A visão clara da esperança lesou-lhe as pernas, acomodando-o em sua espera – e esta não lhe traz paz.

O Cristo dos cristãos lhes provê sonhos, marcos tangíveis do Reino-que-há-de-vir. Não há equívoco em persegui-los. Há, sim, na pretensa humildade de evitá-los. Avante, pequenos cristos, corram efusivamente a jornada da vida confiantes no sucesso de seu fim. Corram destemidos, imparáveis! Vivam a plenitude que lhes foi oferecida – agora e eternamente. A certeza da esperança lhes será coroa, não peso. Que seu Cristo possa ser glorificado em você enquanto aguarda ansiosamente sua glória.

18.6.15

Estrada dos Separados




“E ali haverá uma grande estrada, um caminho que será chamado Caminho de Santidade.
Os impuros não passarão por ele; servirá apenas aos que são do Caminho; os insensatos não o tomarão”
Isaías 35.8

Há muito havia uma tribo. Gente remota vivendo em lugares inóspitos. Eram montanhas rígidas, rudes e ralas. Expulsavam os desavisados, regurgitando-os pelas encostas. Havia ali uma tribo. Gente selvagem vivendo em lugares secretos. As montanhas zangadas proviam-lhes tudo o quanto era necessário, nada mais. Não deixavam faltar. Não deixavam sobrar. Eram possessivas e protetoras. Havia ali uma tribo. Gente infeliz vivendo em lugares indômitos. Viviam das montanhas e delas eram escravos. Não lhes era permitido descer. Não sem a permissão das montanhas.
                
Havia um caminho, uma estrada. Um só trajeto os levaria para baixo, para longe do olhar abrasivo das montanhas. Mas não ousavam mais traçá-lo. Estavam presos. E as montanhas, caladas. Faziam-lhes oferendas e sacrifícios. Escolhiam os melhores grãos e animais e consagravam-nos às Damas-Rocha – como se referiam a elas. Rogavam-lhes pelo seu favor, por uma oportunidade de uma vida distante, diferente. Mas as Damas calavam-se. Não lhes era ainda suficiente. Queriam sangue, não grãos. Queriam a essência da vida humana, não dos animais montanheses. Apenas aqueles que experimentassem a morte poderiam passar. E mortos não passam.
                
Antigamente, outros tentaram a travessia. Cansados da opressão obsessiva das montanhas, marcharam pelo Caminho. Nenhum alcançou o fim. As montanhas tomaram a todos. Engoliram-nos, lambendo os beiços. Não deixaria seus escravos fugirem, não sem tomar-lhes o sangue. Seus corpos foram empilhados à beira da estrada. Altares mortos do fracasso humano. Só havia uma saída – e ela estava vigiada. Só havia um caminho – e ele estava amaldiçoado.
                
As Damas obrigavam seus escravos a um trabalho pesado. Martelavam, cavavam, suavam e sangravam. A solução de sangue e suor regava a terra e deleitava às deusas. Eram elixires de prazer, viciantes e tentadores. E as Damas queriam cada vez mais. Davam-lhes exatamente o suficiente para manterem-nos vivos, fazendo-os suar e sangrar. Eram possessivas e protetoras. Ninguém lhes tiraria seus escravos. Ninguém desceria sem pagar com sangue.
                
Elas faziam-nos procriarem desenfreadamente. Escolhiam as jovens mais belas para copularem dezenas de vezes em rituais misteriosos, até serem encarregadas de preciosa carga – mais sangue e suor. Assim que nasciam os pequenos escravos, eram submetidas novamente aos ritos de procriação. Amarravam-nas em volta de fogueiras e invocavam os homens da tribo para que as possuíssem. Quando perdiam o vigor e a beleza, eram realocadas para outras funções, como o cuidado dos pequenos ou da terra.
                
Havia há muito uma tribo. Gente remota, selvagem e infeliz vivendo em lugares inóspitos, secretos e indômitos. Viviam das montanhas e delas eram escravos. Não lhes era permitido descer. Não sem a permissão das montanhas.
                
Um dia, alguém subiu o Caminho. As Damas tentaram detê-lo, mas não conseguiram. Seus passos eram frágeis e firmes, lentos e decididos. As Damas quiseram engoli-lo, mas não tinham poder sobre ele. Elas fizeram de seu trajeto um tormento, mas seus pés não se desviaram. Seu sangue era puro e as montanhas nada podiam fazer a ele.
                
Escalou a estrada e alcançou a tribo. Disse-lhes que vinha lhes mostrar o caminho para longe das montanhas. Confusos, alguns diziam que se tratava de um emissário das Damas, um demônio querendo enganá-los. Outros estavam tão oprimidos por suas vidas que tinham medo de deixá-las. Quiseram expulsá-lo, apedrejá-lo, matá-lo. Ele mantinha-se absorto em seus próprios pensamentos. O rugido da multidão aproximava-se. Ele chorou. Ouviu o lamento da multidão, viu a opressão nos ombros da gente, a rouquidão das vozes dos pequenos – e chorou. A multidão enfurecida queria matá-lo, mas ela não tinha poder sobre ele. Abriu a boca e sua voz ecoou pelo chão ralo. A gente emudeceu e ouviu seu canto. Dizia que vinha lhes mostrar o caminho para longe das montanhas, que iria salvá-los. A multidão o ouvia atentamente, mas apenas poucos creram.
                
O pequeno grupo seguiu-o até a nascente do Caminho. Tremeram. “Não temam” – disse ele. Mas não lhes era permitido descer. Não sem a permissão das montanhas. As Damas queriam a essência da vida humana. Apenas aqueles que experimentassem a morte poderiam passar. E mortos não passam. O cantor misterioso perfurou suas próprias mãos e marcou-lhes a testa com seu sangue. O homem ensanguentado iniciou a descida e os marcados o seguiram. As Damas tentaram detê-los, mas não conseguiram. Seus passos eram frágeis e firmes, lentos e decididos. As Damas quiseram engoli-los, mas não tinham poder sobre eles. Elas fizeram de seu trajeto um tormento, mas seus pés não se desviaram. Eles estavam puros e as montanhas nada podiam fazer a eles.

11.11.14

De poetar

O poema é ocasião.
É a foto da alma,
O prazer na calma,
A verdade na oração.

Poetar é receber o que está adiante,
Perceber seus movimentos
E - por que não? -
Sua paralisia.
É escolher a luz, o foco, a lente
E ver o diferente
Em tudo o que já é.

Poetar é dizer não à pressa,
É negar a pressão impressa
Pelo inimigo da beleza,
O diabo da nossa gente,
Que nos impede de ver a nossa
Própria
Pobreza.

Poetar é falar com Deus,
É sentir nos ossos a fraqueza
Do ser (belo) humano.
É deixar que ele enterneça
A angústia,
O orgulho,
O engano
E assim...

Entrega os olhos à luz,
A calma à rotina
E a alma a Deus.



5.11.14

Luz e Trevas

Estamos nas trevas. Na mais profunda, inexorável escuridão. Estamos tão envoltos pelos seus ramos, que estes se confundem com nossa pele, penetram nossas veias, encharcam nossas mentes, lambem nossos olhos e, até mesmo, atrofiam os músculos. A escuridão cansa, drena a própria essência da vida e quebra a vontade, mantendo-a respirando com alguns petiscos por dia. A escuridão é nossa irmã, cunhada, tia. É nosso sustento e nosso parasita. É a mão que oferece o alimento do dia e que nos arranha a garganta. Nascemos na escuridão e estamos fadados a viver a vida inteira em seus braços. Nem saberíamos como viver distante da tal implacável treva.

Veio a luz,
veio o dia...
O mais intenso feixe de luz
revelou-se
na forma
de
homem.
Paz
cristalizou-se
em
 nome.
Ele é
vida.


A luz nos feriu, causou-nos a mais intensa angústia. Os músculos gemiam, os olhos tremiam e a língua via toda dor. Alguns, não suportando a agonia, fugiam. Quanto mais a luz se aproximava daqueles que ficaram, mais repelia aquela que outrora nos sustentava. A escuridão nos chacoalhava, retorcia e flagelava. Outros correram do dia, pedindo clemência. Daqueles que ali ainda estavam, as trevas saíam deixando marcas, agarrando-se firmemente à nossa carne com seus dentes predatórios. Sangrávamos. Sangramos... Em sua ceifada final, deu-nos um golpe fatal - se ela não sobrevivesse, não também teríamos de morrer. E morremos. Nossos corpos frios, estatelados pelos chãos deste mundo enfeitavam o dia recentemente iluminado.

Aqueles que experimentaram a morte foram banhados pela luz. Os que foram quebrados pela escuridão eram aos poucos reconstruídos pelo dia. A vida, enfim, visitava o ser humano - e este nunca se sentiu tão livre...

O ladrão vem apenas para furtar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente. (Jo 10:10)
Pois sabemos que nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído e não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu foi justificado do pecado. (Rm 6:6-7)
O ladrão vem apenas para furtar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.

João 10:10

10.8.14

Beleza média

Não há nada mais bonito que a beleza média. Em primeiro lugar, porque poucos falam dela. Não é surpresa para ninguém que as estéticas mais populares beiram os dois polos - o do sublime e do grotesco. O primeiro representa a ilusão do desejo humano e o segundo a abnegação - mas nenhum dos dois supre as vontades mais profundas do ser humano, coisa que só a beleza média pode fazer. A beleza sublime é a fantasia de buscar o inalcançável. É o pensamento equivocado de que, quanto mais próximo da simetria tirana, mais profunda será a satisfação do ego. É o ideal de que precisamos de cada vez mais - inflando e inflando o ser, deixando-o inchado e obeso. A arte, a natureza e a sabedoria já nos mostraram que o exagero não é equivalente à satisfação. Um campo extenso e repleto das flores mais belas é impressionante. Mas é ainda mais impressionante perceber uma flor qualquer em meio a um campo cinza. Como já dizia Drummond:

"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu."

Também o grotesco, a abnegação completa, não é a resposta para as necessidades humanas. Nascido da frustração de um mundo que venera a beleza sublime, o grotesco surge como reação à impossibilidade de alcançá-lo - porém sem nenhuma moderação. É a tentativa de humilhar a humanidade, destruir as bases de suas edificações, queimar os campos repletos de flores - para que então possa surgir nova vida. Contudo, o grotesco não foi bem sucedido nem em seu projeto de  destruição completa, nem na utopia de se reconstruir a vida. Como poderia a violência gerar vida? Como poderia a feiura renovar a beleza? O grotesco é apenas a alma se afogando em sua obscuridade, é a besta que irrompre de dentro do pobre humano. Como já dizia Augusto dos Anjos:

"Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade."

A beleza média não dispõe da popularidade da sublime ou da grotesca. Mas é bom que assim seja. Se fosse louvada em cada esquina, a ganância do homem já a teria transformado em produto. Discreta, ela não carece da publicidade de ninguém. Ela desliza por entre a gente despercebida, inspirando no anonimato. A beleza média é a suspensão entre o sublime e o grotesco. Não é pomposa como aquela, nem radical como esta. Sua principal virtude é ser real. A mulher em sua juventude traz consigo o frescor da vida. É bela por tudo aquilo que tem ainda pela frente, por tudo que ainda não experimentou - denunciada pela pele lisa. Quando se depara com o tempo e envelhece, as rugas aparecem, mas a beleza é a mesma. A beleza média se manifesta no seu justo cansaço, nas marcas que a vida lhe deixou - e que foram superadas. A beleza média repousa no espírito perseverante da experiência, na moderação da sabedoria, no simples e no real - acima de tudo no real. O mais belo da mulher é o fato de ser real. Quando se percebe a realidade da textura do ser vivo, o despimos; passamos a perceber a simplicidade de sua natureza. E, aí sim, estamos prontos para amá-lo. A beleza média satisfaz o ser humano porque o dá a permissão de amar.

A beleza média não busca absorver mais e mais do mundo. Ela tampouco quer destrui-lo. Ela nos liberta da vaidade do exagero e do desespero da destruição, a ponto de perceber a vida como ela é, experimentar de sua realidade. Passamos, enfim, a reconhecer o valor real do que nos envolve. Conhecemos a vida e todos os seus nuances. Apreciamos sua riqueza sem nunca desejá-la. Vemos, inclusive, a beleza na morte - e todas as possiblidades que ela oferece. Como já disse o apóstolo:

"Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado nele (...) Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos."

Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas.

Filipenses 3:
Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas.

Filipenses 3:
A beleza média revoluciona o mundo através da simplicidade. Prova maior disso é a própria Beleza ter se transformado em homem médio, carpinteiro, de mãos rudes e face medíocre. A Beleza despiu-se de si mesma e vestiu a pele de um homem comum. Em suas vestes toscas, ensinou-nos a perceber a vida e todas as suas possibilidades. Em sua simplicidade, descarregou-nos do peso tirano do sublime. Em sua realidade, tocou, sentiu, amou e sangrou. Eis aí a supremacia da beleza média:

"Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvasiou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!"

18.6.14

Branco

Muito se engana quem vê a pureza
como um branco morto,
o vazio completo,
o suspiro
- e só.

A verdadeira pureza é branco flamejante.
É uma onda que engloba,
envolve e dissolve,
dando luz a todas as outras cores
- é tudo.

17.6.14

Salmo 2

Arrasta-se furtivo o traiçoeiro
e leva consigo o punhal enganador.
Suas palavras venenosas cheiram a mel
e os olhos, fitos no tesouro, disfarçam a alma.

Pelos becos escuros trama,
mente, desmente e convence o distraído.
Engendra com gestos e elogios desmedidos
- claro, com todo cuidado - seu vil plano.

Tece inteira a teia
e cava a escura cova.
Cobre cada pequeno espaço
e aguarda ansiosamente pelo bote.

Mal sabe ele, pobre coitado,
a falha do plano infernal:
Seu pé tropeça na cova
e a mão enrosca na teia.

A dança inverte o compasso.
O homem vil, em desespero,
é preso pelo próprio laço.
Cai de joelhos, rendido,

e observa o riso farto do vencedor,
que andava pacientemente
- acompanhado
de seu salvador.

23.4.14

Solução

Toda palavra está repleta de significado.
Toda menos uma.

Ela perambula, errante,
pelos lados errados.

Gasta-se pelas beiradas até
dissolver-se por inteiro.

Espalha-se pelo ambiente, camuflado,
rasgando cada um de seus pedaços.

E morre morte disfarçada,
regando o mundo com suas partes.

Ai, beleza de desvanecer!

5.3.14

O medo e seu antônimo

Estático.

Tomas sua mão no imenso vazio,
moves da escuridão os pés do fraco,
curas o coro de dor de seu calo,
e o lavas puro em teu grande rio.

O medo é a menor das milhares mortes,
o medo é a pior das menores mortes.

Vida.

Queimas os restos em sua imensa brasa,
reúnes o pó do corpo do fraco,
restauras em dor para o seu agrado,
e manda-o puro a viajar com asas.

O amor é o grande antônimo do medo,
meu Deus é o grande antônimo do medo.


31.12.13

A memória do porvir

Cerram-se as portas de mais um ano e inundam-se os bolsos da mente de novas resoluções. Pena que os bolsos são rasos, secam rápido. Tememos justamente aquilo que ansiamos: profundidade. As profundezas inexploradas do ser revelam os gritos dolorosos de nossa alma, os vazios obscuros e nossas doenças mais graves. Vemos também - por que não? - aquilo que podemos ser, uma vez redimidos.

Este tempo superficial me lembra de uma história que acho nunca ter ouvido antes. Um mito ameríndio de um século desconhecido. Diz assim:

"Um homem acordou em meio ao vazio, sem memória alguma. O vazio roubara-lhe tudo. Sem a memória, não saberia quem era de fato e o que buscava. Passou os primeiros dias sem se mover, simplesmente à espera, até que começou a sentir fome. Não lembrava que sentiria fome. Então, se pôs a mover sem uma direção determinada. O primeiro que encontrou foi o Ouro. Este dançava loucamente e joias preciosas escorriam em vez de suor. Quanto mais dançava, mais joias tinha. No entanto, se parava, as joias secavam. Convidou o homem à sua dança: se ele pegasse as joias antes que caíssem no chão, não secariam. Propôs dividir o que juntassem - e nunca parariam de juntar. O homem não teve que pensar muito para concluir que as joias não matariam sua fome. Seguiu em frente.
 O próximo que encontrou foi a Volúpia. Carregava um jarro sem fundo, que derramava infinitamente um pequeno fio de água. Contudo, toda água que entrava por sua boca escancarada escorria pelo vestido adornado. Propôs que o homem o acompanhasse: se entrelaçassem os corpos, a água não vazaria mais de seu vestido e poderiam saciar toda a sede. Disse ainda que assim que sua sede estivesse saciada, emprestaria o jarro a ele, para que também saciasse a dele. Novamente, o homem recusou: não estava com sede. Era a fome que precisava extinguir. Seguiu em frente.
 O terceiro encontro se deu com o Poder. Em suas quatro mãos carregava quatro cetros - de ouro, prata, bronze e carne. À sua frente havia um pequeno pilar com uma coroa enriquecida de rubis. Se vestisse a coroa, teria poder sobre todo o Vazio, mas se soltasse qualquer um dos cetros, a coroa desaparecia e só voltaria a aparecer quando segurasse todos os quatro novamente. Pediu então que o homem o acompanhasse, se colocasse nele a coroa, teria enfim todo o poder. Propôs fazer dele seu servo de mais alta confiança, tendo o privilégio de ser sempre o primeiro e o último a servir o rei do Vazio. Pela terceira vez, o homem recusou. Não teria sua fome satisfeita. Seguiu em frente.
 O último encontro se deu com a Memória. Ela andava livre, sem nada das mãos, braços ou pernas; sem dançar loucamente; sem nenhuma necessidade. Ela recebeu o homem e lhe ofereceu contar-lhe seu nome. Não seu nome do passado, mas seu nome do futuro, aquele que ele teria um dia. Antes que o homem aceitasse, ela advertiu-o: Este nome não teria efeito algum ali no Vazio. Se pronunciado, apenas aumentaria sua fome. Para que pudesse usar seu nome, teria que deixar-se cair num poço logo adiante, um poço que não sabia se tinha fundo. Mas o homem não teve dúvidas. Tinha fome, fome de seu nome. A Memória entregou-lhe o que prometera e mostrou-lhe o poço. O homem se jogou e caiu por séculos e séculos."
O fim do mito nunca foi encontrado. De certo porque seu contadores originais nunca ousaram se jogar daquele poço. Tinham medo das profundezas. E continuariam sem saber seus nomes. Sem saber quem de fato eram e porque estavam ali.

Há boatos, no entanto, de alguém que subiu daquele poço. Era alguém tão cheio que o Vazio não o aguentava. Dizia ser o nome dos nomes e ofereceu a cada um daquele mundo um nome novo - não do passado, mas do porvir. Os donos daquele mundo se ofenderam e jogaram-no de volta no poço. Mas disse que um dia voltaria. E quando voltasse, não haveria mais Vazio. Só restariam aqueles com nomes. E tudo seria cheio.

4.11.13

Salmo 1

A felicidade não é para os pés errantes
ou os passos cambaleantes do aventureiro.
É estar enraizado, fixo, certeiro
em meio às tempestades desconcertantes.

Pobre de quem foge da palavra de ferro e prata,
a voz escrita em traços legíveis e claros.
No fim, se espalha pelos dias cansados
e não fica para a tal bela serenata.

11.3.13

pena

ser criança é (vi)ver tudo (de) novo;
correr por ser possível;
(sor)rir por ser gostoso;
chorar por ser doído.

a infância é (celebr)ação do ser.
é uma pena que a gente esquece.

30.12.12

Ano novo

Vida nova é um tanto simples.
Simples - não fácil.

Algo aqui, acolá;
um aperto; olhar atento;
voz tenra e mão disposta.
Simples.

Não é, contudo -
palavras: vento.
Vida nova é um tanto simples.

Quem tem dois - reparta;
Daquele com poder - justiça;
Do que tem força - serviço.
É isso. Simples.

Vida nova é um tanto simples.
E, de certa forma, como o estribilho
só o é quando for repetido.

Lucas 2: 7-14.

28.11.12

palavra que mata

"...o falar dos tolos vem das muitas palavras" (Eclesiastes 5:3)

Antes algo sagrado, a palavra hoje perde seu gosto. Sim, eram sagradas essas mesmas letras que hoje espalhamos com tanta naturalidade. Não é para menos. As palavras têm uma função um tanto discreta, mas ao mesmo tempo crucial, na definição de nossa persona. Como uma cerca no pasto extenso, as palavras delimitam, consolidam, paralisam - e matam... Não há nada mais mortal que a palavra. À medida que gastamos mais palavras, morremos mais profundamente, nos esvaziamos. Se as palavras são, geralmente, significados peregrinos, proferi-las significa retirar de nós todo seu significado - deixá-lo livre. Libertamos a palavra - e nos aprisionamos.

Sabe-se de uma lenda há tempos perdida acerca de uma tribo ameríndia, que por aqui vivia muito antes de incas, xavantes, maias, astecas, tupis. Não se sabe seu nome porque não tinham, não podiam. Dar nome a alguém representava sua morte - do nomeado e um pouco do nomeador. Por sinal, pouco falavam. Cria-se que cada homem tinha vida equivalente a cem palavras - e as mulheres, cinquenta. Contavam fielmente cada palavra proferida. Utilizavam as palavras de forma tão sábia e bem colocada que estas adquiriam poderes de cura, destruição, bênção, maldição - e, em raras oportunidades, criação. Nenhum povo usou menos as palavras, mas também nenhum usou melhor. Quando a contagem de palavras atingia seu limite, realizava-se uma cerimônia ritualística: o homenageado era sacrificado após um longo ritual de purificação; não podia uma carcaça viver; não pode o corpo permanecer uma vez que se esgotaram as palavras. O corpo era queimado e, então, davam-lhe um nome; um nome sem letras, um nome composto pelas diversas variações de silêncio que eles conheciam tão bem. Só nomeavam os mortos. Sabiam...

"porque a letra mata e o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6)

Nenhuma palavra pode ser desdita, revogada. Nem a vida que com ela vai. Morreremos todos, então, pois bem - não é nenhuma novidade. A graça está em saber morrer. A morte traz com suas asas negras e infames o medo; carrega no seu dorso a dor; transmitem com suas garras o sofrimento. O velho abutre é silencioso e paciente, atraído pelo cheiro dos corpos pútridos. A última coisa que leva consigo é a esperança. E esta não pode deixar-nos. Não precisa ser assim. Não precisa.

"Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor enquanto ainda éramos pecadores" (Romanos 5:8)

O preço da morte foi pago. O pássaro negro foi destituído de suas forças. No entanto... ele continua aí, à porta. Pairando. Esperando. Maquinando. A morte não abandonou nosso encalço e ainda persegue com violência. Ela está em cada palavra, em cada suspiro que exala de nossos corpos. Continuamos com uma certeza em vida: a certeza da morte. Mas a graça está em saber morrer. Não precisa ser assim. Não precisa. O velho abutre iniludível pode vir, mas não deve levar consigo a esperança...

"Pois sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu, foi justificado do pecado. Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos. Pois sabemos que, tendo sido ressuscitado dos mortos, Cristo não pode morrer outra vez: a morte não tem mais domínio sobre ele. Porque morrendo, ele morreu para o pecado uma vez por todas; mas vivendo, vive para Deus. Da mesma forma, considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus." (Romanos 6:6-11)

A morte virá, inserida em cada palavra. A todo momento - morremos. A graça está em saber morrer. Afinal, é preciso morrer para ter vida. É necessário se esvaziar de restos para ser preenchido. A cada palavra me esvazio mais. A cada letra, sou despido do que é inútil. Quero que vá. Quero ser vazio, um grande nada. Assim e só assim serei completamente preenchido pela vida - vida plena. A morte vem, sim, e com ela traz a esperança. Mato-me todos os dias até que minha existência seja resumida à mais plena, imensurável e inabalável vida. A Graça ensina a morrer - para viver.

"Quem tentar conservar a sua vida a perderá, e quem perder a sua vida a preservará" (Lucas 17:33)