12.11.09

Relativo

Algo curto.
Sim, com pressa,
sem muito o que pensar.
Algo só para preencher
os espaços que faltam
Entre "entre" e "fim"do fim

Algo só que os deixe contentes,
sem aquele trabalho todo
De mexer e descolar a mente,
Nem precisa fazer sentido!
Só faça,
Faça que eles adoram.

Mas quem sabe, um dia.
Eles olhem para as palavras
como realmente são.

Quem sabe, um dia
não tenhamos que discorrer sobre a verdadeira relevância de versos
[compridos ou
curtos

[Algumas coisas não tem tanto mistério assim]

Quem sabe, um dia
"amor" signifique Amar
E não velha peça de porcelana,
Parte da coleção de seus amados avós

Quem sabe, um dia
O essencial não escape mais aos olhos
E a gente, enfim, poderia
Simplesmente... aceitar.

[A Academia poderia, as vezes, usar um pouco de fé.]

30.10.09

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

(Cecília Meireles)

E lógico que esta poesia não poderia ser minha.

22.10.09

Por mais gago

Que eu seja, formar-se-ão palavras na minha boca.
Talvez sem muito sentido, sem tanta ordem
Mas simples e sinceras... ainda que não fáceis.

Falarei sempre do que me acompanha,
Um pouco acanhado no ínicio, que seja
Mas não envergonhado.

Porque o que de mim vejo sempre perto
Não pode me dar maior alegria,
Sinto só por não fazê-lo caber em palavras.

Mas enquanto eu continuar pequeno,
Cabendo na palma de sua mão
Caberei em ti e me satisfaço
Nas tuas palavras, que em minha boca virão
Não importa o quão gago eu seja

15.10.09

À procura da Arte

Ouviu o homem um sussurro estranho, que entrou por seu ouvido no vibrar de uma frequência estranha, retumbando e batendo estranhamente dentro de sua cabeça, até chegar na mente e se dissolver junto de todos os seus conhecimentos anteriores. O chão parecia frio. Cinza e frio. Mas desenhava o andar de cada pessoa que um dia passou por lá, seus pés, seus jeitos, o que falavam, o que sentiam. O ar estava carregado de história e quando assim percebeu, pareceu-lhe que ia sufocar, tamanho peso e importância do simples ar. Tudo parecia iluminado por igual, e por um momento, todas as pessoas eram iguais. Não em aparência, ou em personalidade (seria muita pretensão afirmar isto), mas algo as unia, como uma necessidade só, de toda a humanidade. Via neles algo que parecia seguir a vida de cada um. Todas as pessoas eram iguais, debaixo de uma só perspectiva.
Em seu momento de epifania, pôs o lápis a sambar e riscar o papel em branco. Mas tudo que lhe saia não expressava em nada o que via. Tentou desenhar, mas a luz era indecifrável e de repente viu-se frustrado por não saber o que era bom ou ruim, o que seria genial como seus pensamentos, ou simples farsa, que passa de um dia para o outro, sem ser importante para ninguém, para momento algum. Afinal, o que é a arte?
Seus anos já não eram tão curtos - tinha filhos, esposa, tios, tias mãe e pai. Já vira tanto que nem se podia guardar: lembrou-se do momento em que fez, pela primeira vez, um importante gol no time da escola. A alegria lhe extasiava e nunca houve mais um segundo sequer que tivera tantos amigos, tantas paixões e fosse tanto amado, como naquele momento em que a bola cruzou, por inteiro, a linha do gol adversário. Pegou-se devaneando na sua primeira namorada e como aquilo lhe causara tamanha vergonha. Mas ao lembrar-se de seus tempos imaturos, sorriu por ter sido um tempo necessário. Veio-lhe à mente, então, o instante que primeiro passara dos limites com amigos no bar, pode revolver o álcool que lhe entorpecia qualquer tipo de pensamento, o movimento leve e lento das mãos, a risada vazia e ecoante, como também o buraco posterior em sua alma - nunca mais faria coisa do tipo... até a semana seguinte. A vida passou mais um pouco, e sua quarta namorada (que viria a ser a sua companheira para o resto de sua vida, a que podemos confirmar) já visitava seus parentes e sentiu-se pela primeira vez intimidade, viu nela aquilo que queria para sempre, mas que por muitas vezes esqueceu que tanto a desejara. O medo de ser pai e segurar no colo a vida a qual dele proviera - e seu esômago gelou. Outros tantos momentos passaram atropelando outros, de modo indistinguível. Conseguiria fazer arte com tudo que já lhe foi oferecido na vida? Seria arte a representação da sua pessoa, em toda a sua abundância? Ou a completa negação desta?
Viu, por fim, um completo desinteresse no humano. Este já não lhe parecia mais atrente e encantador. Soava-lhe um ser tão mesquinho e pequeno, cheio de necessidades e... frágil. Muito do que pensavam era completa estupidez, e diante de todo o seu ser fracassado, embriagavam-se de orgulho e arrogância, negando olhares para aquele que tiveram menos sorte, reclamando autonomia do Universo, e impondo todo tipo de ideologia, como se fossem os verdadeiros inventores da sabedoria. Mas basta uma chuva, um escorregão... e todo pensamento, sorte, orgulho, riqueza, ideologia e sabedoria caem por terra, com o homem debaixo dela. O homem é um ser tão fraco e passageiro. Pode arte sair de suas mãos?
Saiu da escada a qual observava o mundo sem uma respota. Procurou nos prédios, ares, flores e belezas. Definiu, então, que arte é aquilo que agrada o homem - completamente plausível: a arte provoca no ser humano os mais variados sentimentos que lhe causam um certo conforto, lhe deixam morno e lhe inspiram felicidade. Contentou-se com sua conclusão, mas então viu as ruas, a gente, e as casas. Seus olhos pareciam tão diferentes, tantas coisas que lhe pareciam ocultas - e o incomodavam agudamente - sobressairam-se à sua vista e sentiu grande depressão. Definiu que arte deveria confrontar os erros, a falta de respeito e a falta de lugar. Tudo que estivesse errado, deveria ser acusado, em plena corte fantástica, pela arte. Sentiu mais firmeza em sua razão, porém... como unir esta definição à anterior? Olhou para o lado e lá estavam dois bêbados, que em sua gritaria e risos descontraídos, abordavam com palavras todos à sua frente, enquanto andavam pela calçada. Muitas palavras extremamente desnecessárias foram proferidas, porém algumas outras grandemente curiosas, que despertavam revolta. Seria o absurdo também arte? Teria ele lugar junto do Belo, e do Justo? Seria o retrato da incerteza e confusão do homem algo a ser elevado como arte?
A definição que antes lhe parecia certa, agora escapava por entre seus dedos. Até que... Lembrou-se daquilo que ligava toda a humanidade. E tudo pareceu, então, desconfortavelmente claro. Seria uma linda resposta, mas ao mesmo tempo, o desmascaria por completo, deixando transparente para o mundo.
Viu-se, pela primeira vez, totalmente indefeso... encontrou a arte.