4.9.10

O Experimento - Preguiça de Pensamento

- Mas não simplesmente desisti! - continuou, com o copo na mão. Intensifiquei o tratamento químico, agora com alucinógenos. Era o que deixava o objeto mais ocupado, mas criou uma dependência gradativa que prejudicava seu organismo das maneiras mais consideráveis: primeiro psicologicamente, e depois fisicamente.
- Mas deve-se considerar que o psicológico interferiu no físico?
- Sim, como suspeitávamos. Nesse sentido, os humanos são semelhantes a nós. A falta daquilo que trazia ao objeto um momento de serenidade que o fez mergulhar no exagero. De novo, o caos... Não restou outra opção: tirei os alucinógenos.
- Como ele se comportou?
- De maneira assustadora. Nenhum outro animal testado apresentava tamanho desespero e descontrole. Sofria com intensos calafrios, não tinha mais energia ou vontades.
- É como se ele desejasse seu mal! Absurdo!
- Não creio que seja isso. Observei que ele ainda mantinha reflexos e atos de proteção. Uma vez, tomei um risco enorme e expus o objeto a toda oportunidade de fazer mal a si mesmo, em todos os graus, em todas as perspectivas. Dia muito cansativo...
- E então...
- Ele prejudicava-se apenas com algumas das oportunidades que 1) não demonstravam nenhum perigo grave explícito ou 2) em que os prejuízos - ou até a abstenção de benefícios - eram de médio a longo prazo.
Perceberam que os copos estavam vazios. O homem fez sinal e foi atendido. Continuaram.
- Explique melhor...
- Presumo que meu objeto tinha um perfil psicológico não propenso à depressões emocionais - que fariam-o machucar-se propositadamente, ou até tirar-lhe a própria vida. Sendo assim, era contra a sua vontade que ele sofresse. Mas isso não o impedia de tomar decisões que o prejudicasse mais do que o satisfizesse - e é preciso ser claro no fato de que todas as opções feitas pelo objeto em questão traziam-no alguma vantagem - emocional, biológica ou social - porém uma preguiça de pensamento, talvez, não fizesse-o considerar que o mal trazido pela mesma escolha era maior do que as vantagens. Ou ainda de que, com sua escolha, viria um prejuízo posterior - na maioria dos casos, muito posterior - que superaria o êxtase dos benefícios. É mais um campo muito delicado e complexo das pesquisas. Talvez ousaria dizer que eles não tem uma visão clara de como medir vantagens e prejuízos.
Molhou a garganta e prosseguiu:
- Observe, criei um ambiente muito comum socialmente, o de festas - que, por sinal, também daria uma pesquisa antropológica muito interessante. Minha intenção era proporcioná-lo o prazer de múltiplas relações emocionais. Fui bem sucedido. Na mesma noite, no entanto, enquanto verificava seus sinais mentais, cardíacos, químicos e, principalmente, seu fluxo de animus, vi o último muito instável. Analisei os gráficos e percebi que o maior estrago da jornada foi feito entre a terceira e a quarta onda, apresentando um ruído quase da mesma intensidade que o sinal original.
- O do Segundo Vazio...
- Sim, o respectivo às relações interpessoais. Tanto envolvimento emocional instaurado e quebrado rapidamente causou uma instabilidade que repercutiu durante toda a semana - embora apenas alguns picos fugiam do inconsciente.
- Mas esses envolvimentos significavam tanto assim? Não foram criados oportunamente?
- Sim... imagine se fossem mais relevantes. Outra situação curiosa é a familiar. O objeto não tinha extensos laços familiares - o que, na lógica, significaria uma maior importância e cuidado -, mas mesmo assim gerava desconforto e desapego.
- Mas não era a família responsável pela estabilidade emocional de quase todos os experimentos anteriores? Dos outros animais?
- Exato. Ao mesmo tempo que existe o Segundo Vazio, os humanos insistem em rejeitar a melhor oportunidade de preenchê-lo. E de, talvez, transbordá-lo. Culpo a preguiça... preguiça do pensamento.

26.8.10

Aprendendo a se amar

Era uma tarde fria
Num dia de chuva que não caía
A água e o Sol suspensos
Só o último dando seus gracejos

Um pássaro de asas largas
Chegava alto e rápido no Sol e água
Mas de um jeito, mantinha
Fechada sua vontade de voar
Podia a qualquer momento
Abrir, soltar, saltar
Mas o medo o prendia certo
Numa gaiola sem cadeado
E todos os bixos em baixo:
"vem água, vem água, vai pássaro!"

Foi numa tarde fria
De dia onde chuva não caía
Que o pássaro saiu do chão
Passou pela porta que não o prendia
Chegou nos altos, sem mais ninguém
Conversou com o Sol e as nuvens também
E a água caiu
Os dias mudaram

[nem liguem para os dois posts seguidos sobre pássaros, pura coincidência]

8.8.10

Miracle

A lonely bird sat
On the top of a single tree
It has wide sharp eyes
But nothing, though,  it sees
No expectations,
No worries at all,
But there's no starvation
Be it winter or fall

2.8.10

O Experimento - Caos

Ele já esperava-o com um copo na mão. Sentou-se na banqueta ao lado e fez sinal ao barman, que respondeu com um "quanto tempo! O mesmo de sempre?". Fez que não, e escolheu sua bebida. O homem, que não se movera até então, virou o rosto adornado por um leve sorriso enjoado e recebeu o recém-chegado:
- Realmente, quanto tempo... entendo que a viagem foi demorada. E perigosa. Mas, diga-me, como foi?
- Não vale a pena.
- Mesmo? Só isso? 
O outro respondeu com a cabeça, logo após tomar um gole amargo e descansar seu chapeu no balcão. Voltou os olhos para seu interlocutor e confirmou:
- Não vale nada.
Num misto de surpresa e frustração, o homem balançou a cabeça:
- Não faz sentido! Nós achávamos que...
- O que nós achávamos - interrompeu o outro - não valia nada. Depois de um suspiro, continuou, "é tudo vazio como o branco e imprevisível como o negro. É um ambiente por demais hostil para o humano, sem expectativas de uma grande vida. De fato, nossa teoria não confere.
Depois de uma breve pausa, o homem adicionou, ainda inconformado:
- Isso é completamente irracional! Homens expostos ao prazer contínuo deveriam experimentar uma vida completa e feliz!
- Não foi o que aconteceu. Descobri ser praticamente impossível fazer um homem feliz -tomou mais um gole e seguiu relatando. Manipulei praticamente todas as situações que causavam prazer para o meu primeiro objeto: comecei com comidas, bebidas e entretenimento em mídia, como estudamos, porém o resultado se distanciava muito do objetivo, ele sentia-se inseguro e solitário. Dei-lhe sensação de segurança e criei oportunidades para que ele satisfizesse suas necessidades sexuais e relacionais. Os resultados foram positivos no começo, mas rapidamente o objeto sentiu-se entediado e buscava sempre algo novo, inquieto e, mais uma vez, inseguro.
- Insegurança parece ser um grande desafio para essa espécie.
- Com certeza. Aprendi que eles são extremamente instáveis em seu humor, dependentes do jeito que acordam, daqueles ao seu redor, do ambiente e até do clima!
- É possível que tais condições resultem em reações químicas, afetando assim o humor do objeto?
- Na maioria das vezes, não. Há, obviamente, extremos como a completa inadequação climática, que fazem o corpo humano trabalhar em condições adversas, causando desconforto. Aliás, o extremo é uma característica marcante nos humanos - tomou o último gole e parou por uns instantes, pensativo, como se apenas agora chegasse a essa conclusão. Em todas as situações a que o objeto foi exposto, ele persistia na fonte de prazer, sugando dela o máximo possível - como se essas coisas tivessem um limite de prazer a oferecer. Talvez isso que estimulasse o tédio do objeto, o constante desespero por uma sensação maior que a anterior. Parece-me que há algo invisível dentro do ser humano que faz com que ele tenda para o caos.
- Interessante... mas eles rejeitam a ordem?
- De forma alguma. Em várias áreas de suas sociedades eles tem a ordem em grande estima.
- Mas tendem ao caos?
- Sim...