22.3.11
A Onda
Da visão daqueles meus feitos.
Fazem balançar meu céu,
Partilham minha terra,
Roem meus ossos,
pedaço a pedaço,
metade à metade,
Na louca agonia
De um ritmo louco
Que penetra a carne.
Lá ao fundo se encontra
De sangue um tantinho
Escondido do corpo
Dando-se o direito
(Daquelas leis pessoais
Nem o coração mal sabe)
De consigo esconder a vida.
Deixa, então, aquele resto
Numa desesperada batida
De quem não sabe nadar:
Sabe e vai – apodrecerá
Mais Cedo ou tarde…
A carne, sem sangue
Fará a falta precisa
Que o corpo precisa
Pra terminar de morrer
E não sei enfrentar esta onda!
Meu Pai esquecido,
Faz deste remendo
Quem sabe um dia
Um belo remédio.
Agarra pelos pulsos
Sem que caia e parta
Meus tantos ossos
Que estão à porta.
Bota em mim padrão
Me bota para amar
Sem aquela variação
E inconstância lunar
Que basta a semana
Pra mudar de cara
E nem faz de conta
Que da gente lembra.
Sei que só a sua mão
Pra parar minha perda,
E só esse seu coração
Pra perdoar este louco.
12.1.11
Nas entrelinhas
Dos olhos de um novo rapaz
Aos risos de uma linda mulher
Vemos traços de música,
Sem uma exata harmonia:
Notas cambaleantes e inseguras,
No aguardo do que há de vir,
Ensopam a camisa branca,
Dilatando as pupilas dos solistas
Enquanto o coração dita o passo
Cada vez mais rápido do metrônomo
Em poucos segundos,
Uma colcheia atropela a outra,
Dois arcos se desafiam,
Quatro mãos deslizam pelas teclas
Em desordenada fantasia de calma,
Como um pássaro orgulhoso que cai
Mas tem as asas quebradas.
Toma o veneno sem hesitar,
A vida caminha torta,
Sem mais certo lugar
Até que duas pausas pousam juntas
Seguidas de breve, semi-breve, mínima
Todas elegantes acompanhadas.
Entreolham-se hesitantes
Com confiança, não obstante
Pisam juntas, marcam passo,
Encontram mãos lúdicas
E bocas secas de esperança:
Finda-se a música,
Bem-vinda a dança
19.12.10
De estar só
Nada pinta mais o rosto,
Nem seca esse molhado,
Ou refaz aquela dor
Dum peito enjaulado
Um espaço vago se vê
Nem música, arte ou sonhos
Invadem aquilo que falta
Sem os tais sorrisos bobos
Ah! E então?
Quem dera soubesse
o remédio da solidão
3.12.10
Como um trem
Olhando o céu, sobre o mar,
Cruza o verde tocado por pássaros,
Alaranjado e constante
Na música sua de máquina,
Quente no ventre negro e sólido,
Paredes que não se contém
O coração salta sem vez
Os trilhos titubeiam e fogem de lugar,
Não quero pensar
Só quero passar
Não quero pensar
Só quero passar
O grito surdo é atendido
Na encruzilhada, diverge
Compreende a escolha solitária
Seu raciocínio muda do vício
Olhos tentar recuar
Por saudades do ar
Estabelece errados os passos,
E a dor no coração
Faz a terra tremer
Um longo e sonoro gemido é ouvido
Os giros contrários:
Rubros em fúria
E agora? E agora? E agora?
E agora? E agora?
E agora?
Há sempre um novo caminho
Uma rua justa, bela e robusta
Onde vão em paz tuas rodas