Quase sem velas, paira sob as águas
Deslizando, pesado e lento.
O capitão, absorto em solidão e fracasso,
Iça, puxa, cansa e geme.
Corre louco em redor, bradando,
De punhos cerrados às vagas estrelas,
Quase sem respostas ou nitidez ficam
Longe e inalteradas, quase indiferentes.
Mas o homem-do-mar sabe
Que delas vêm a vontade sobre o medo
Na esperança última da luz.
Qualquer uma! Morte ou vida!
Porém...
Nada...
Somente um pálido olhar
De quem está com preguiça.
E vai ele, marujo condenado,
Dobrando, passando, tremendo e gritando.
E nem mesmo obtém resposta
De seu único companheiro, frio e inflexível.
Não dobra nem à direita ou à esquerda,
Num mesmo ritmo semi-morto,
Lento demais para revirar a mente de um são,
E rápido o suficiente para dar passo
A uma nauseante inquietação
De quem nunca para,
Nem mesmo para morrer.
Colocado ali um dia
Com a tal benção ou maldição
De nunca afundar - por inteiro.
De nunca perder seu timoneiro,
E eternamente vagar pelo mar.
Visão radiante... para um iniciante...
Que distorce na primeira tormenta.
E chocando com pedras e pedras,
Atrai o desejo último - quiça inevitável
De parar, enfim, parar...
[escrito em Florença]
28.11.11
16.8.11
de dentro... para dentro
e não raramente aparecem errados?
a gente fala coisas tortas
e nelas crê,
sabe?
cada giro meu
torna ao mesmo lugar
e insisto em girar.
os dias vazios transbordam as semanas,
numa vontade niilista de viver só
com choros que não caem
sabendo do erro.
sabendo...
o desejo é de ter perto
na distância de um sorriso
uma presença de amigo.
enquanto o pensamento vem mutilado
das tormentas todas de dentro
passando aperto no peito
para morrer, em maré,
de saber,
eu monto pilhas e pilhas
de trapos esparsos
sem, espero, tombar
e não ofereço. não! não ofereço!
assaltado por mim, guardo,
e o peso empurra
para as águas,
fundas
olha, meu mundo,
e percebe o erro?
insisto no terceto...
mesmo aqui as palavras se agrilhoam
viciadas no torpor do pensamento
que, machucado, ilude o resto
a fim de ferir mais
fundo
não posso dizer somente
aquele medo latente?
não sei ser só...
28.7.11
Ela vai casar
Sempre que passava a mão nas flores do jardim se sentia assim, como elas. Seu vestido florido ajudava, cabelos morenos balançando. Uma mecha escorria retorcida pelos olhos, apontando ao nariz gracioso. Quando a porta abriu, abriu também um sorriso. Tanta história passava por aquele dia, os sentidos se misturavam todos de tão intensos e densos. Aquele homem que abria caminho pelo passeio a mudara desde o primeiro encontro.
Num começo com muitos doces e poucos amargos, trocavam palavras de afeição, como amantes mesmo fariam. Tempo juntos era sempre lucro e os dois se deliciavam com os minutos. Se o céu estava limpo, era uma grande oportunidade de saírem ao mundo, com olhos curiosos e sedentos. Os momentos acompanhados marcavam a história de cada. Provavelmente veriam os parques, as árvores e os pássaros alguma vez na vida, contudo o coração torna as coisas tão mais relevantes quando as vemos ao lado de quem se ama. Se o céu escurecia, era a oportunidade perfeita de cerrarem a porta de casa, procurando jogos e brincadeiras infantis. Agradeciam a chuva. Nem sequer o tempo que passavam separados era desperdiçado. Seus afazeres todos ganhavam especial tempero pela sensação extasiante de um sei-lá-o-quê incontido que banhava seus dias, seus sorrisos e choros.
Sim, houve muitos choros. Até certo ponto, era coisa natural, porém foi piorando e as cosias acinzentaram de vez na primeira crise. Era doença. Tinha também imaturidade. O que lhe ardia era como a imensa maioria das vezes, ele estava certo de fato, e ainda mais, quando estava errado, ela tinha de se comportar como se fosse o contrário. Não suportava! Era como trezentas mil calúnias à sua existência, um presente atestado de invalidez moral. Quando as doenças, passaram, a imaturidade continuou. As brigas eram tão constantes quanto os abraços. Os dois cresceram, os dramas também. Fizeram tantas viagens, para dentro ou para fora que ao que tudo indica não conseguiriam lembrar de todas. Mas, não importa o estado em que iam, continuavam selando seus calendários com seus bons momentos.
Descobriram que era mais ou menos assim. Enquanto os poetas e escritores displicentes escreviam sobre o amor, eles o vivam - todos os seus lados. Havia dias - e como havia - que não se olhavam. A raiva cerceava os quartos, num pulsante alerta a todos que andavam pela casa. Ele, sempre mais maduro, era responsável pela maioria das iniciativas. E ela sofria com isso. Tentava sempre estar mais preparada, melhor para ele, mas aos seus olhos falhava incessantemente. Assim, frustava-se e recolhia-se como animal ameaçado, sentidos atentos à qualquer demonstração que possa ser interpretada como agressiva. Odiavam seus erros e viam-nos projetados no outro. No entanto, com esperança persistente, reconciliavam-se. Buscavam amar - e suportar os defeitos.
Tudo chegou a este momento. Os cabelos esbranquiçados dele estavam cada vez mais ralos. E em questão de dias, entregaria ela aos cuidados de outro homem. Ela foi ao seu encontro, pronta para sua última caminhada com ele... como solteira:
- Bom dia, pai. Vamos?
Num começo com muitos doces e poucos amargos, trocavam palavras de afeição, como amantes mesmo fariam. Tempo juntos era sempre lucro e os dois se deliciavam com os minutos. Se o céu estava limpo, era uma grande oportunidade de saírem ao mundo, com olhos curiosos e sedentos. Os momentos acompanhados marcavam a história de cada. Provavelmente veriam os parques, as árvores e os pássaros alguma vez na vida, contudo o coração torna as coisas tão mais relevantes quando as vemos ao lado de quem se ama. Se o céu escurecia, era a oportunidade perfeita de cerrarem a porta de casa, procurando jogos e brincadeiras infantis. Agradeciam a chuva. Nem sequer o tempo que passavam separados era desperdiçado. Seus afazeres todos ganhavam especial tempero pela sensação extasiante de um sei-lá-o-quê incontido que banhava seus dias, seus sorrisos e choros.
Sim, houve muitos choros. Até certo ponto, era coisa natural, porém foi piorando e as cosias acinzentaram de vez na primeira crise. Era doença. Tinha também imaturidade. O que lhe ardia era como a imensa maioria das vezes, ele estava certo de fato, e ainda mais, quando estava errado, ela tinha de se comportar como se fosse o contrário. Não suportava! Era como trezentas mil calúnias à sua existência, um presente atestado de invalidez moral. Quando as doenças, passaram, a imaturidade continuou. As brigas eram tão constantes quanto os abraços. Os dois cresceram, os dramas também. Fizeram tantas viagens, para dentro ou para fora que ao que tudo indica não conseguiriam lembrar de todas. Mas, não importa o estado em que iam, continuavam selando seus calendários com seus bons momentos.
Descobriram que era mais ou menos assim. Enquanto os poetas e escritores displicentes escreviam sobre o amor, eles o vivam - todos os seus lados. Havia dias - e como havia - que não se olhavam. A raiva cerceava os quartos, num pulsante alerta a todos que andavam pela casa. Ele, sempre mais maduro, era responsável pela maioria das iniciativas. E ela sofria com isso. Tentava sempre estar mais preparada, melhor para ele, mas aos seus olhos falhava incessantemente. Assim, frustava-se e recolhia-se como animal ameaçado, sentidos atentos à qualquer demonstração que possa ser interpretada como agressiva. Odiavam seus erros e viam-nos projetados no outro. No entanto, com esperança persistente, reconciliavam-se. Buscavam amar - e suportar os defeitos.
Tudo chegou a este momento. Os cabelos esbranquiçados dele estavam cada vez mais ralos. E em questão de dias, entregaria ela aos cuidados de outro homem. Ela foi ao seu encontro, pronta para sua última caminhada com ele... como solteira:
- Bom dia, pai. Vamos?
20.6.11
Sinfonia do céu
Em tons claros passa o dia,
Retorcendo o laranja em azul,
Enfeitado de pingentes brancos,
Rastros dos anjos imaginários,
Caminhos de qualquer fantasia,
Que deslizam em bandos,
Como dirigíveis intocáveis.
Ao pé um verde ralo, pouco e sincero
Suporta o astro-rei na escalada solitária
(a qual nenhum homem jamais fará igual),
E dando também certeza
de que é
real
e também realeza.
Do pó vemos acima,
E do pó acreditamos.
Mais um pouco, o azul,
Na tristeza de um amor perdido,
Roxeia o laranja,
Nos últimos abraços
De uma despedida carregada,
Uma tristeza sem carga, nua e inevitável,
Cuja dor vem consolar
Pelos trovadores do ar,
Aqueles tantos que de anos caminham,
Chegando às vezes mortos...
Mas não sua música,
Interpretada sempre
Pela dama
Branca e tímida,
Que por ora, de vestido volumoso
Mostra tanto, tanto
Que nela nadamos
Não vejo harmonia,
Entre a diária sinfonia do céu
E meu ser calado,
Que enfraquece voz ao lado,
Por desgosto de ser tão destoante
Parece que o ritmo, no fim, é diferente
E deve ela mesma seguir à frente
Enquanto prendo eu no meu atraso
Retorcendo o laranja em azul,
Enfeitado de pingentes brancos,
Rastros dos anjos imaginários,
Caminhos de qualquer fantasia,
Que deslizam em bandos,
Como dirigíveis intocáveis.
Ao pé um verde ralo, pouco e sincero
Suporta o astro-rei na escalada solitária
(a qual nenhum homem jamais fará igual),
E dando também certeza
de que é
real
e também realeza.
Do pó vemos acima,
E do pó acreditamos.
Mais um pouco, o azul,
Na tristeza de um amor perdido,
Roxeia o laranja,
Nos últimos abraços
De uma despedida carregada,
Uma tristeza sem carga, nua e inevitável,
Cuja dor vem consolar
Pelos trovadores do ar,
Aqueles tantos que de anos caminham,
Chegando às vezes mortos...
Mas não sua música,
Interpretada sempre
Pela dama
Branca e tímida,
Que por ora, de vestido volumoso
Mostra tanto, tanto
Que nela nadamos
Não vejo harmonia,
Entre a diária sinfonia do céu
E meu ser calado,
Que enfraquece voz ao lado,
Por desgosto de ser tão destoante
Parece que o ritmo, no fim, é diferente
E deve ela mesma seguir à frente
Enquanto prendo eu no meu atraso
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