19.4.10

Senhor das Árvores (começo)

Esta história começa com uma menina triste. Mas peço, caro leitor, que não fique triste por ela. Não quero dizer que ela é uma má menina, que não merece compaixão (se é assim que a compaixão funciona), mas digo isso porque, como você poderá perceber no decorrer da história, a sua tristeza será motivo de alegria. Não sei se vocês já tiveram esta impressão, mas me parece que muitas das coisas ruins que vivemos mais adiante serão transformadas em riso, desde aquele momento constrangedor que passamos na frente das outras pessoas até decisões inicialmente ruins, mas que renderão bons frutos. Esse é o caso de Lily, que está chorando silenciosamente porque seu pai aceitou um novo emprego na cidade (o que seria uma ótima notícia, se isso não resultasse no abandono da maravilhosa casa no campo onde moravam até agora). Pois é, Lily achava uma grande maldade os fazerem mudar de casa só por causa de um emprego novo, ainda mais quando sua antiga casa tem um jardim enorme com uma linda árvore com um balanço e uma casinha rosa repousando na grama, onde Lily guardava seus brinquedos favoritos e vivia grandes aventuras. Ela imaginava que morariam num apartamento apertado e sujo, com ratos em todos os quartos que não iriam a deixar dormir e um intenso barulho de cidade – seja lá o que isso significa. Foi assim que Lily viu pela última vez a sua casa no campo: com lágrimas nos olhos, sendo consolada pela mãe.

17.4.10

Sem título

Eu, insustentável ser,
Descobri teu amor
Quando vi teu querer.
Mesmo eu cheio de dor,
Vaso velho estilhaçado,
Cidade pobre em ruínas.
Descobri ser amado,
Quando assim me querias

Incoerência do Ser

Minh'alma mira meu rosto,
Mas nada encontra.
Encontra, sim,
Falas codificadas em nós;
Caretas que negam as mãos;
E pés virados,
Cada qual para seu lado.

"Que indecifrável ser é este?
Sendo aquilo que desgosta...
Fazendo o que não quer...
Na sua constante e débil luta,
Luta de si contra si mesmo,
Debatendo no ar vão movimentos,
e submergindo...
No balanço dum belo barco
Que há muito perdeu sua razão".

Encontra, sim, muito...
Mas nada encontra.

31.3.10

Mestre dos Olhares

Quem diria que uma viagem de ônibus revelaria tantas coisas. Na verdade, só uma. Uma que vale por tantas e tantas outras. E tudo isso aconteceu por intermédio de uma pessoa. Talvez meia-pessoa fosse o mais adequado. Quem sabe até menos que meio.
Percebi-o enquanto me ocupava com os fones de ouvido. Viagens obrigatórias de ônibus não são lá tão divertidas, principalmente quando se está sozinho. Os fones enroscaram no boné - tão baixo, que me protegia de ter que olhar para as outras pessoas. Vendo a minha falta de destreza, o mesmo boné resolveu o problema: "Deixa que eu saio por uns instantinhos... afinal, assim também ganho um descanso. Sua cabeça não é tão confortável assim, sabe?". Ignorei este último comentário, mas aceitei o favor.
Assim que o boné pulou de seu confortável lugar, vi-o, olhando para mim. Nossos olhares persistiram, até que ele desviou levemente para cima, mas não como sinal de derrota, havia nele uma superioridade, era como se ele não precisasse de mim e eu necessitava do seu olhar. Eu era o inferior.
Para o meu sossego, ele atendeu ao meu clamor e voltou novamente seus olhos para os meus. Olhava curioso. Olhava bravo. Olhava choro. Não sabia direito como olhava, só que não fazia mais nada; não chorava, nem ria, não dava o menor sinal de satisfação (como era habilidoso no olhar, mesmo tão pequeno!).
Balancei aos poucos minha cabeça, acompanhando o ritmo da música que saía dos fones. Mal sabia eu que não se consegue ouvir nada de um fone que já se encontra posto - uma lei quase universal, ali ignorada. Até meu boné riu de mim. Não liguei. Continuei balançando a cabeça, na expectativa de que este gesto quase-louco sustentasse seu olhar. Não adiantou. Olhou para tantos outros lugares, e olhava com a admiração que faltava em mim, com espanto, como se tudo fosse novo, até as cores. Os dedos descobriam tudo que tocavam e valia tudo a pena.
De repente, ele saiu, me deixando sozinho.
Senti-me como ele, como um pequeno bebê. Não sei se ainda me recuperei do encanto.