atravessa o vácuo das palavras
o olho descuidado,
atraído pelo adjetivo.
mal sabe que assim mata
- o sujeito (?)
e predica pedregulhos.
a palavra, coitada,
é submetida à circunstância
e desmancha.
8.10.12
3.9.12
Logos
Eu sou o fogo.
Operar purificante,
línguas sedentas
sobre o ferro
que endurece –
não sem antes amolecer.
Impacto imperioso,
penoso,
que limpa.
Eu sou a água.
Não um rio, nem
uma bica
- uma torrente.
Os limiares da
terra e céu,
o engenho
silencioso de toda gente.
Sou eu que mato
- para dar vida.
Eu sou a terra.
Os fundamentos de
toda existência,
as torres brancas
silenciosas
e o pó – sim.
Do pó retiro minha
imagem
e semelhança.
Eu sou o silêncio.
Incontrolável,
inapreensível.
A mudez de toda
gente;
e o barulho da
alma.
Sou aquele que é
achado
não na divina
calma,
mas quando se está
calado.
19.8.12
Palhaço!
Era
o que respondia na idade de criança quando lhe perguntavam sobre sua
futura carreira. Não acreditavam, seu pai e mãe, não levavam a
sério. Errou por pouco. Era bancário. Mas, num belo sábado decidiu
desobedecer. Vestiu suspensórios, um nariz vermelho, um rosto branco
e algumas bolas coloridas.
Foi
até o semáforo. Observou os carros passar. Vermelho. Foi até o
meio da rua. Jogou as bolas ao ar, uma a uma. Uma a uma caíram –
no chão. Passou a procurar as bolas, que se meteram debaixo dos
carros. Quando estava para pegar a última: verde. Estava lá no meio
da rua e ouvia as buzinas. Era atormentado por elas, cercado,
inundado, surrado. Críticas. Caiu – desta vez ele. Observou os
carros passar até parar e engatinhou por entre eles para a longínqua
calçada. Talvez não precisassem de palhaços no semáforo.
Decidiu
tentar novamente no domingo. Saiu para o maior centro social de seu
tempo, o grande mercado globalizado diminuído em versão local,
ainda com nome estrangeiro, shopping mall.
Empurrou a porta, mal notado, mesmo com suas cores. Dirigiu-se à
grande feira mundial de comidas. Jogou as bolas para o alto, uma a
uma. Uma a uma caíram – no chão. Recolheu-as e jogou novamente.
Uma caiu em sua mão, outra na outra, a terceira... Recolheu-as. A
primeira – mão –, a segunda – mão –, a primeira – ar –,
a terceira – mão –, a segunda – ar –, a primeira – alguém
lhe esbarra e as bolas caem no chão. Quando recolheu as bolas pela
terceira vez, olhou ao redor. Seus olhos não encontraram nenhum
outro. Eram todos máquinas sem luz, programados para ouvir e ver
apenas o que aprazia ao shopping.
Foi para casa.
Obstinado,
acordou na segunda-feira sem descanso. Seria palhaço de novo. Vestiu
o suspensório, o nariz vermelho, o rosto branco e as bolas
coloridas. Entrou no prédio, no elevador. Sexto andar, o escritório.
Telefones e passos no carpete bege. Camisas brancas enfeitadas por
gravatas cinzas. O mesmo som, repetido, repetido, repetido: “Banco
dos sonhos, aguarde; Banco
dos sonhos, aguarde; Banco
dos sonhos, aguarde”. O
palhaço olhou para as cores em sua mão. Elevador; último andar;
escada e teto. O palhaço observou o movimento embaixo, carros em
linha, na mesma direção – cinza, preto, branco, prata. Inclinou
um pouco para frente e deixou o peso do corpo fazer o resto.
O
mundo não quer saber de palhaços, apenas de cadáveres – e quanto
se pagará por caixão e lápide, conjunto promocional.
26.4.12
vermelhando
O verme é uma coisa tão linda e insignificante;
tão diminuto;
ocupa um lugar ingrato - mas necessário
- na natureza
e não falha.
Ele come os mortos.
(e também os vivos, no tempo livre)
Ninguém o ama.
Pisam-lhe, sim, os desgostos;
lastram nele toda angústia;
culpam-no da existência patética,
enquanto remove o podre de todos.
Nunca matam.
(mas cuidam da morte)
Se são bons? Não sei...
não importa.
não mais.
Já me cuidam das entranhas
e me dão à terra.
tão diminuto;
ocupa um lugar ingrato - mas necessário
- na natureza
e não falha.
Ele come os mortos.
(e também os vivos, no tempo livre)
Ninguém o ama.
Pisam-lhe, sim, os desgostos;
lastram nele toda angústia;
culpam-no da existência patética,
enquanto remove o podre de todos.
Nunca matam.
(mas cuidam da morte)
Se são bons? Não sei...
não importa.
não mais.
Já me cuidam das entranhas
e me dão à terra.
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